Julho

'Chega de saudade': é a vez da bossa nova

Álbum de João Gilberto marca o início do movimento que ganharia o mundo

João Gilberto reinventa a forma de tocar violão. Na composição “Chega de Saudade”, de Tom Jobim e Vinícius de Moraes, ele vem com uma batida sincopada, explorando a riqueza dos acordes dissonantes de Jobim e incorporando elementos do jazz norte-americano: é o nascimento da bossa nova, uma revolução na música brasileira.

No final dos anos 1950, o Brasil passava por grandes transformações políticas, econômicas, culturais e sociais. O presidente Juscelino Kubitschek enfatizava a modernização e o desenvolvimento, acelerando a industrialização e a urbanização e permitindo a formação de uma nova classe média. Essas mudanças se refletiam também na produção cultural, que buscava novos padrões estéticos em diferentes áreas, sintonizados com um ideal de cosmopolitismo, mas ambicionando a criação de referências nacionais.

É nesse contexto que a bossa nova surgiu como gênero musical, rompendo os padrões tradicionais da canção brasileira, que tinha o samba e o samba-canção como parâmetros essenciais. A nova forma de cantar dialogava com o samba, mas incorporava a cadência e os temas mais intimistas do jazz.

“Chega de Saudade” já havia sido lançada três meses antes, pela voz de Elizete Cardoso, no seu álbum “Canção do Amor Demais” — de pouco sucesso, apesar do repertório, todo de Tom e Vinícius. A canção teria sua versão definitiva somente no primeiro álbum solo de João Gilberto.

O novo gênero remetia a um Brasil solar, praiano, luminoso e surpreendentemente jovem. Era uma novidade extraordinária, que nem todos assimilaram na primeira audição. Os mais resistentes apontavam a “alienação” dos principais compositores do movimento, enquanto outros criticavam a influência norte-americana. A bossa nova, no entanto, influenciaria gerações de músicos no Brasil e no mundo.

Antes, porém, da gravação de “Chega de Saudade” por João Gilberto, alguns precursores já vinham apontando tendências na forma de cantar, influenciados pelo cool jazz dos Estados Unidos — Dick Farney, Lúcio Alves, Johnny Alf e o conjunto Os Cariocas, entre outros.

Também prenunciaram o novo ritmo músicos como Valzinho (Norival Carlos Teixeira, irmão de Newton Teixeira), que já utilizava os acordes dissonantes bem antes da bossa nova, e os parceiros de Noel Rosa: Custódio Mesquita — em canções sofisticadas como "Noturno em Tempo de Samba" (1944), em parceria com Evaldo Ruy — e Vadico — em “Guanabara”, parceria com Aloísio de Oliveira, e “Prece”, parceria com Marino Pinto, ambas de 1956.

Num segundo momento a ruptura foi mais intensa, com origem nas experimentações de um grupo de compositores, quase todos muito jovens, interessados numa sonoridade que fugisse ao rebuscamento dos sambas-canção e ao convencionalismo do repertório então vigente. Faziam parte nomes como Carlos Lyra, Roberto Menescal, Ronaldo Bôscoli, Newton Mendonça, Sylvinha Teles, Oscar Castro Neves, Chico Feitosa, Luiz Carlos Vinhas, Sérgio Mendes, Eumir Deodato, Dom Um Romão, Wanda Sá e os irmãos Paulo Sérgio Valle e Marcos Valle, além, é claro, de Tom Jobim, João Gilberto, Vinícius de Moraes e a musa Nara Leão — que fora anfitriã e adversária da bossa nova até se tornar, finalmente, sua intérprete definitiva.

Como movimento musical, a bossa nova teve vida curta e intensa: surgiu em 1958 e durou até por volta de 1963. O movimento inventou um gênero musical, criou uma novidade rítmica capaz de virar o samba ao avesso, desfiou harmonias inusitadas e inaugurou um estilo contido de interpretação. Pela primeira vez, um movimento musical tentava deliberadamente reler a criação da vanguarda literária do país — em especial, os concretistas e os grandes poetas do modernismo brasileiro, como Carlos Drummond de Andrade, João Cabral de Melo Neto, Murilo Mendes, Cecília Meireles e Manuel Bandeira. 

No plano da linguagem, a temporalidade da bossa nova era outra: durante todo o século 20 ela serviu, ao mesmo tempo, de âncora e de horizonte para a canção popular brasileira. Nesse plano, a bossa nova era Tom Jobim e João Gilberto.

Tom foi decisivo na definição dos rumos da harmonia, isto é, no jeito de agregar um acompanhamento instrumental à melodia cantada. João Gilberto inventou a batida da bossa, com um jogo de equilíbrio entre o ritmo do canto e o do violão, em que cada sílaba cantada ocupava um lugar milimetricamente sintonizado com os ataques de acorde e os baixos do violão.

Em 1958, quando eles se encontraram para gravar o primeiro álbum de João Gilberto, surgiu um modo diferente de fazer música, que não estava inscrito na tradição, e isso era bossa nova: o samba ritmicamente simplificado numa batida, capaz de acomodar as harmonias mais complexas e sofisticadas.

A bossa nova estaria na raiz dos principais acontecimentos musicais da década seguinte: os afrossambas de Baden Powell, a canção de protesto contra a ditadura, o tropicalismo, o Clube da Esquina.

Como tudo o que é novo e faz sucesso, a bossa nova também virou marca e logo seria associada a todo tipo de produtos, no Brasil e nos Estados Unidos: calçados, eletrodomésticos, óculos, leite em pó e até um jeito esquisito de se pentear. A marca desencadearia uma febre comercial e serviria para associar aos produtos a ideia de ousadia, juventude e modernidade.

A bossa nova seria assimilada por todas as músicas populares do planeta, a começar pela Europa e Estados Unidos, e passaria a ser sistematicamente gravada por grandes astros internacionais — em 1967, isso significaria, por exemplo, sustentar o repertório de um álbum inteiro de Frank Sinatra, “Francis Albert Sinatra & Antonio Carlos Jobim”.

O novo gênero forneceria aos brasileiros a senha para acelerar o tempo e criar, em cinco anos, algo capaz de vencer o subdesenvolvimento — ao menos no campo da cultura. Seria um modo de mostrar o que o país tinha de melhor e confirmar sua viabilidade: um Brasil moderno, cosmopolita, sofisticado, belo e livre.