dezembro

'A Mais-Valia Vai Acabar, Seu Edgar!'

CPC da UNE faz arte popular revolucionária a partir da peça de Oduvaldo Viana Filho

Intelectuais ligados à União Nacional dos Estudantes (UNE) criam o Centro Popular de Cultura (CPC), a partir de um núcleo do Teatro de Arena de São Paulo.

Em março do ano seguinte, o CPC publicaria seu anteprojeto, reafirmado no manifesto de agosto, que selaria o compromisso com a “arte popular revolucionária”, baseado no entendimento de que “fora da política não há arte popular”. Essa arte, diria o manifesto, deveria ter a linguagem do público e só iria "aonde o povo consiga acompanhá-la, entendê-la e servir-se dela”.

A ideia de criação do CPC surgiu durante a temporada das peças “Eles Não Usam Black-Tie”, de Gianfrancesco Guarnieri, e “Chapetuba F.C.”, de Oduvaldo Viana Filho, no Rio. O grupo, então, envolveu-se na criação da peça “A Mais-Valia Vai Acabar, seu Edgar”, já com a proposta de uma ação política e didática.

Com texto de Vianinha e Chico de Assis e música de Carlos Lyra, a criação de ”A Mais-Valia…” teve a assessoria de Carlos Estevam Martins, do Instituto Superior de Estudos Brasileiros (Iseb). Esse grupo formaria o núcleo inicial do CPC, juntamente com o cineasta Leon Hirszman.

O CPC tomaria forma a partir dos debates ocorridos num curso de filosofia organizado pelo núcleo. A inspiração original viera do Movimento de Cultura Popular (MCP), fundado no Recife por Paulo Freire, Ariano Suassuna e Francisco Brennand, entre outros.

Os CPCs se espalhariam pelo país graças à atuação da UNE Volante, uma espécie de caravana que percorreria o Brasil estabelecendo contatos entre os universitários e os núcleos de trabalhadores da indústria e do campo.

As longas viagens reuniriam, em alguns casos, centenas de estudantes dispostos a consolidar a atuação da UNE nos movimentos estudantis regionais. Nas cidades aonde chegava, a UNE Volante realizava assembleias, reuniões com as lideranças estudantis, discussões sobre reforma universitária, vendia os livros e discos do CPC e apresentava suas peças.

Nessa mistura de arte com política, a preocupação estética muitas vezes era suprimida pela ideológica. Essa atuação abrangente e dinâmica se espalharia pelo país e criaria uma intensa rede de mobilização popular, que se estenderia até o golpe militar de 1964.

Entre as peças teatrais montadas destaca-se "O Auto dos 99%”. No cinema, o filme “Cinco Vezes Favela”. O CPC ainda editaria os “Cadernos do Povo Brasileiro” e atuaria na área de educação de adultos. Lançaria também o compacto “O Povo Canta”, que fez grande sucesso entre os jovens, com destaque para a “Canção do Subdesenvolvido” e “João da Silva”.

A UNE Volante causaria grande impacto num país com dimensões continentais porém sem rede nacional de televisão, de comunicações interestaduais limitadas e malha viária precária, deixando um legado de 12 filiais do CPC espalhados pelos centros estudantis do país.