23 de junho

Academia de Mestre Bimba é reconhecida

Antes perseguida, capoeira já é vista como esporte e conquista adeptos

Manuel dos Reis Machado, o Mestre Bimba, consegue registrar sua academia de capoeira na Secretaria de Educação, Saúde e Assistência Pública da Bahia. Enquadrada como modalidade esportiva e marcial, ela passa a se chamar Centro de Cultura Física e Capoeira Regional, com sede no tradicional bairro do Pelourinho, em Salvador.

A capoeira regional de Mestre Bimba procurava se opor à imagem do capoeirista valente e desordeiro, que portava sempre uma navalha, pronto para sair na briga. O mestre tentava assim popularizar sua prática, inclusive entre as classes médias e os estudantes universitários. Para tanto, inspirado em lutas como o jiu-jítsu, o judô, a luta greco-romana e até o maculelê, Mestre Bimba inventou novos golpes e um novo jeito de jogar a capoeira.

A academia existia desde 1932, no Engenho Velho de Brotas, em Salvador, mas nunca obtivera o reconhecimento do poder público. O alvará de funcionamento foi um marco importante, pois, apesar de a polícia ainda perseguir seus praticantes, a luta que mescla dança e combate começaria a ser aceita pelas autoridades.

Foi um longo caminho. Perseguida desde a escravidão, proibida em todo o território nacional pelo primeiro código penal da República, de 1890, a capoeira resistira à repressão e continuava a ser praticada.

Com a Revolução de 1930, intelectuais modernistas, que desde a década anterior procuravam valorizar as raízes da nossa brasilidade, ganharam espaço nas editoras e no próprio aparelho de Estado. A cultura negra já interessava aos estudiosos que, como Gilberto Freyre, valorizavam nossa herança africana e a influência do negro na formação nacional.

Em 1934, realizara-se no Recife o 1º Congresso Afro-Brasileiro, onde estudiosos não só apresentaram trabalhos, mas também visitaram terreiros, provaram comida de santo, ouviram batuques, assistiram a exposições de pinturas e fotografias e presenciaram demonstrações de capoeira e de samba de roda. 

O 2º Congresso Afro-Brasileiro acontecera em Salvador, de 10 a 20 de janeiro de 1937. Dessa vez, além de reuniões e apresentações de trabalhos, demonstrações de capoeira, exposições e visitas a terreiros de umbanda e candomblé, houve manifestações de afrodescendentes, pela valorização e respeito à sua cultura. Eles não queriam ser vistos apenas como objetos de estudo, mas como pessoas com direitos a reconhecer e respeitar. No final do Congresso, aprovou-se uma moção de apoio à luta antifascista pela libertação do negro assalariado.

Uma nova narrativa sobre o Brasil estava sendo construída e consolidada. Nela, o africano e seus descendentes seriam valorizados, e a miscigenação, vista como um grande trunfo brasileiro. Foi assim que a feijoada, a capoeira e o samba viraram símbolos da brasilidade.