15 de agosto

‘Amarelo-manga’ consagra cinema autoral

No filme de Cláudio Assis, estética da violência se contrapõe à produção comercial

O diretor Cláudio Assis lança "Amarelo-manga", longa-metragem ambientado na periferia do Recife e que acaba por revelar um cinema de vanguarda fora do eixo Rio-São Paulo.

Ao longo da primeira década dos anos 2000, o cinema nordestino (em especial a escola pernambucana) teria papel de destaque na produção cinematográfica brasileira. Nesse contexto, “Amarelo-manga” se tornaria um marco.

Realizado com um orçamento de apenas 500 mil reais, "Amarelo-manga" utiliza-se da estética crua da violência e da escatologia para contar histórias relacionadas ao Hotel Texas — como a de seu atendente, apaixonado por um açougueiro às voltas com a esposa religiosa e a amante, ou a história de um hóspede que sente prazer em balear cadáveres e se interessa por uma desiludida dona de botequim. O filme foi premiado nos festivais de Brasília, Berlim e Toulouse.

Esse cinema autoral, surgido no início dos anos 2000, tem muito em comum com o Cinema Novo da década de 1960 o rompimento com o cinema comercial; a centralidade do periférico; o foco na pobreza, no sertão e na favela; a forma transgressora de retratar a subalternidade e a estética do choque e do contraste.

O cinema autoral da pós-retomada teria entre seus expoentes filmes como "Cidade Baixa" (2005), do baiano Sérgio Machado, "Árido Movie" (2005), do pernambucano Lírio Ferreira, "O Céu de Suely" (2006), do cearense Karim Aïnouz, "Cinema, Aspirinas e Urubus" (2005), do também pernambucano Marcelo Gomes, e "Baixio das Bestas" (2006), de Cláudio Assis.

Outro polo de cinema do período seria o Rio Grande do Sul, com cineastas como Jorge Furtado, Carlos Gerbase e Renato Falcão.

A década também seria marcada pelas megaproduções comerciais, cofinanciadas pela Globo Filmes —  longas-metragens com alta qualidade técnica, narrativas lineares e enredos que se tornariam sucesso de bilheteria: "Se Eu Fosse Você" (2006) e "Se Eu Fosse Você 2” (2009), de Daniel Filho, e "2 Filhos de Francisco" (2005), de Breno Silveira, foram os filmes brasileiros mais assistidos da década, com mais de 5 milhões de espectadores cada.

Entre 2000 e 2010, seriam lançados cerca de 600 filmes brasileiros, mais de 500 deles a partir de 2003. Os lançamentos se intensificariam a partir de 2006, com marcas nunca inferiores a 70 por ano.