17-26 de maio

Bispos condenam porões da tortura

CNBB denuncia violações dos direitos humanos; dom Helder fala em Paris

Durante a 11ª Assembleia Geral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), a igreja católica toma posição contra o autoritarismo e divulga documento em que denuncia os abusos do regime militar sobre os direitos humanos e sociais. A hierarquia religiosa, que havia apoiado o golpe de 1964, voltava-se agora contra a violência da ditadura.

Dizia o documento da CNBB: "Não podemos admitir as lamentáveis manifestações da violência, traduzidas na forma de assaltos, sequestros, mortes ou quaisquer outras modalidades de terror. [...] Pensamos no exercício da JUSTIÇA, [...] que, sinceramente, cremos estar sendo violentado, com frequência, por processos levados morosa e precariamente, por detenções efetuadas em base a suspeitas ou acusações precipitadas, por inquéritos instaurados e levados adiante por vários meses, em regime de incomunicabilidade das pessoas e em carência, não raro, do fundamental direito de defesa".

No dia seguinte à divulgação do documento, o arcebispo de Olinda e Recife, d. Helder Câmara, mundialmente conhecido e candidato ao Prêmio Nobel da Paz, denunciaria as torturas em Paris para uma plateia de dez mil pessoas. Ao regressar ao Brasil, tornou-se alvo de feroz campanha de desmoralização junto à opinião pública. Os jornais foram proibidos de entrevistá-lo e até de mencionar seu nome. A firme posição de destacados bispos, arcebispos e cardeais – como d. Paulo Evaristo Arns e d. Aloísio Lorscheider, além de d. Helder – abriu um contencioso entre a ditadura e a hierarquia católica no Brasil.

A tensão aumentaria nos anos seguintes, com a implantação das Comunidades Eclesiais de Base, conforme orientação da 2ª Conferência Episcopal Latino-Americana (Celam), realizada em Medellín (Colômbia), em 1968. A Teologia da Libertação, a Igreja dos Pobres e as CEBs seriam importantes instrumentos de organização e conscientização política das camadas mais desprotegidas da população.