23 de novembro

Brasil reata com a União Soviética

Ato diplomático irrita conservadores, mas Tancredo nega opção ideológica

O governo de João Goulart reata relações diplomáticas com a União Soviética. Alinhavado pelo ministro das Relações Exteriores, San Tiago Dantas, o desfecho do processo de reaproximação com a potência comunista provoca a ira de setores conservadores, em especial a cúpula da igreja católica. O chanceler assegura que a ação diplomática não supõe o abandono dos princípios da democracia representativa no país.

No mesmo dia, após uma reunião do gabinete parlamentarista, o primeiro-ministro Tancredo Neves garantiu aos jornalistas que a decisão não implicava nenhuma concessão ideológica à URSS. “O Brasil continua sendo democrático e cristão”, afirmou.

Apesar do impacto, a decisão do Brasil, não foi sem precedentes. Desde 1959, no governo de Juscelino Kubitschek, o país já havia restabelecido relações comerciais com a URSS. Jânio Quadros, ainda em campanha eleitoral, mostrava-se favorável ao reatamento das relações diplomáticas e, ao assumir, iniciou, com o protagonismo do chanceler Afonso Arinos, conversações com o governo soviético.

Os maiores interesses comerciais do Brasil eram trigo, fertilizantes, bens de produção, petróleo bruto e óleo diesel, enquanto a URSS tinha grande interesse em importar o nosso café. Com a reabertura da embaixada brasileira em Moscou, San Tiago Dantas completou o processo.

Para a oposição e os grupos conservadores católicos, entretanto, o interesse real soviético no Brasil seria ideológico, pois abriam-se as portas para a doutrinação comunista no maior país da América do Sul. Para nosso chanceler, os interesses comerciais brasileiros justificavam plenamente a decisão do governo.