17 de setembro

Capitão da guerrilha é abatido no sertão

Isolado, doente e faminto, Lamarca é morto com sete tiros no interior da Bahia

É assassinado no sertão da Bahia o capitão Carlos Lamarca, uma das principais lideranças da luta armada contra a ditadura. Lamarca foi capturado na localidade de Pintada por militares integrantes da Operação Pajuçara, sob comando do major Nilton Cerqueira. Juntamente com José Campos Barreto, o Zequinha, foi encontrado descansando sob uma árvore, fraco e doente. Desde a morte de Carlos Marighella, em novembro de 1969, Lamarca era o alvo número 1 da repressão.

O fato de ter abandonado o Exército para aderir à guerrilha atraiu contra ele a ira dos comandantes das Forças Armadas, que o consideravam um desertor. Lamarca não era um capitão qualquer: campeão de tiro e um dos principais especialistas em contrainsurgência do Exército, ele havia participado das Forças de Paz da ONU no Canal de Suez.

Nos pouco mais de dois anos em que viveu clandestinamente, Lamarca demonstrava ansiedade para estabelecer um foco guerrilheiro no interior do país. Exasperava-se com os intermináveis debates teóricos sobre a estratégia que seria adotada e com os sucessivos adiamentos. Era um homem de ação.

Frustrado com a indecisão e com a falta de recursos materiais da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), aderiu em 1971 ao Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR-8), que prometia montar imediatamente um núcleo guerrilheiro no sertão da Bahia. Com Zequinha, Otoniel Campos Barreto e Luiz Antônio Santa Bárbara, Lamarca começou a organizar uma rede de apoio na região. Mas, em pouco tempo, seu paradeiro seria descoberto pela repressão.

A tropa que partiu em seu encalço era formada por mais de 200 agentes das Forças Armadas, da PM e do Dops da Bahia, sob comando do major Cerqueira, chefe do DOI-Codi na região. Lamarca e Zequinha escaparam do cerco inicial, em Buriti Cristalino, embrenhando-se pelo sertão, num penosa fuga que os debilitou fisicamente. Foram alcançados e mortos a 300 quilômetros do ponto de partida.

Segundo o relatório da Operação Pajuçara, “foi fácil e rápido exterminá-los: Zequinha despertou com o barulho da aproximação dos agentes e acordou Lamarca. Tentou correr, mas foi metralhado por um soldado, gritando antes de cair morto: 'Abaixo a ditadura!' Os agentes estabeleceram um pequeno diálogo com Lamarca, já ferido, e logo também o executaram com rajadas”. Lamarca recebeu sete tiros. Seu corpo foi sepultado em Salvador, em uma cova sem nome.

Em 22 de setembro, o Departamento de Censura da Polícia Federal distribuiria a seguinte ordem aos meios de comunicação: "Por determinação do presidente da República, qualquer publicação sobre Carlos Lamarca fica encerrada a partir da presente, em todo o país. Esclareço que qualquer referência favorecerá a criação do mito ou deturpação, propiciando imagem de mártir que prejudicará interesses da segurança nacional".

A morte de Lamarca, o último herói da guerrilha, foi um duro golpe no ânimo dos militantes das organizações revolucionárias do Brasil.