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Juventude católica dobra à esquerda

Estudantes cristãos pregam o socialismo humanista e criam a Ação Popular

Termina, no convento dos jesuítas de Belo Horizonte, o 1º Congresso da Ação Popular, iniciado dia 31 de maio e decisivo para a constituição de um movimento com autonomia em relação à hierarquia da igreja católica.

Esse congresso decidiu-se pela criação da Ação Popular (AP), com profissão de fé no “socialismo como humanismo”, na democracia e no pluralismo democrático. Em fevereiro do ano seguinte, na Bahia, o grupo seria formalmente criado.

No início dos anos 1960, a crescente polarização da política havia levado duas organizações de origem cristã — a Juventude Estudantil Católica (JEC) e, sobretudo, a Juventude Universitária Católica (JUC), braços da Ação Católica no meio estudantil — a assumir uma posição cada vez mais próxima das opções políticas defendidas pelas forças de esquerda.

A AP se originou da ideia de construir uma organização política autônoma, baseada em formas de ação socialistas, democráticas e humanistas e capaz de ultrapassar as diretrizes da igreja para atuar diretamente na vida pública brasileira.  

O empurrão dos movimentos leigos estudantis — braços da Ação Católica — para fora da igreja foi dado pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), que, no final de 1961, proibira aos líderes da JUC concorrer a cargos eletivos das entidades do movimento estudantil.

No final da década de 1950, os movimentos de juventude ligados à igreja católica não apenas haviam feito uma irreversível inflexão à esquerda, como passaram a atuar de forma intensa no movimento estudantil. No momento em que foi repreendida pela hierarquia, a JUC, aliada ao Partido Comunista Brasileiro (PCB), dirigia a maioria das entidades do movimento estudantil. Como AP, o movimento de origem católica manteria a hegemonia nos órgãos estudantis durante toda a década de 1960.

O padre Henrique Cláudio de Lima Vaz foi o grande teórico da AP e responsável pela elaboração do Documento-Base aprovado no 1º Congresso.

O grupo atrairia militantes muito além da área de influência católica: estudantes, professores, artistas, jornalistas, intelectuais e até cristãos protestantes. Graças ao apoio de setores progressistas do clero, conseguiria se aproximaria do operariado urbano e manteria forte militância na área rural, sobretudo no Nordeste.

Entre 1962 e 1964, militantes da AP participariam ativamente na definição de políticas públicas do governo de João Goulart, especialmente no Ministério da Educação e Cultura, na Superintendência de Política Agrária (Supra) e no Movimento de Educação de Base (MEB).

A década de 1960 também seria marcada pela influência da Revolução Chinesa. Teve início então o processo de inserção dos militantes nas fábricas e nos campos — a ponto de participar da criação de vários sindicatos rurais em todo o país.

Essa nova orientação levaria, em 1969, à formação de uma ala dissidente: o Partido Revolucionário dos Trabalhadores (PRT).

Em 1972, um novo "racha" daria origem a duas facções que reivindicavam para si o nome de Ação Popular: um deles acabaria se incorporando ao PCdoB, e o outro constituiria a Ação Popular Marxista-Leninista (APML), cuja ação seria interrompida pela ação do aparelho repressivo — até 1974, vários dirigentes seriam presos ou mortos, e alguns simplesmente desapareceriam.