19 de março

Comunistas entram na mira da repressão

Depois de liquidar esquerda armada, ditadura ataca o PCB: dez dirigentes mortos

Quatro dias depois da posse do general presidente Ernesto Geisel, o dirigente comunista exilado David Capistrano da Costa é preso quando tentava entrar no país por Uruguaiana, fronteira com o Uruguai. Ele seria assassinado e seu corpo nunca foi encontrado. Veterano do levante de 1935 e da Guerra Civil Espanhola, Capistrano foi o primeiro dos dez membros do Comitê Central do PCB que seriam “desaparecidos” entre 1974 e 1975 enquanto a ditadura acenava com um projeto de “abertura” e “distensão”.

Criado em 1922, o partido era a maior organização marxista do país e teve grande influência no movimento de massas anterior ao golpe de 1964. Era contrário à luta armada e defendia a resistência democrática em organizações legais, como sindicatos, escolas, imprensa e dentro do MDB. Pelo menos 69 militantes foram assassinados nos 21 anos da ditadura, mas a repressão só decidiu liquidar o PCB depois de ter exterminado as organizações de esquerda que sustentaram a luta armada.

A caçada começou na metade de 1973, quando o general presidente Emílio Garrastazu Médici oficializou a indicação de Geisel. Valendo-se de agentes infiltrados na cúpula do partido, o DOI-Codi montou a Operação Radar, que iria prender mais de 500 militantes comunistas, quase sempre torturados, e localizar a gráfica clandestina onde era impresso o jornal do PCB "Voz Operária".

Três membros do Comitê Central foram assassinados em 1974: David Capistrano, João Massena Melo e Luiz Ignácio Maranhão Filho. Seus corpos nunca seriam entregues aos familiares. A violência aumentaria depois da vitória eleitoral do MDB em novembro. Ao longo do ano seguinte, outros sete dirigentes seriam assassinados e “desaparecidos”: Élson Costa, Jaime  Miranda Amorim, Orlando Bonfim Júnior, Nestor Veras, Hiran Lima Pereira, Walter Ribeiro e Itair Veloso. Dos 32 membros do Comitê Central, um terço “desapareceu” em dois anos. A Operação Radar matou pelo menos dez outros militantes comunistas, incluindo o gráfico Alberto Aleixo, responsável pela impressão da "Voz Operária". Morto em consequência de torturas, em agosto de 1975, era irmão de Pedro Aleixo, o vice do general presidente Costa e Silva.

A violenta tentativa de liquidação do PCB seria denunciada publicamente em outubro de 1975, quando o jornalista Vladimir Herzog morreu sob tortura no DOI-Codi de São Paulo, e prosseguiria até janeiro de 1976, quando foi morto no mesmo local o operário Manuel Fiel Filho.  Esses assassinatos provocariam a maior crise militar do período Geisel e seriam decisivos para a retomada dos movimentos pela redemocratização do país.