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Projeto do plano piloto de Brasília. (Imagem: Arquivo Público do DF)

Os criadores

Oscar Niemeyer

Nascido no Rio de Janeiro em 1907 e consagrado como um dos mais respeitados arquitetos em todo o mundo, Oscar Niemeyer foi decisivo na concepção e realização de Brasília. O concreto armado que se apresenta plástico e suspenso no ar, as linhas sinuosas que parecem desafiar as leis da física, a grandiosidade de uma arquitetura que lembra um conjunto de esculturas semipousadas no solo, todas essas características, que ao longo dos anos se firmaram como marca da capital federal, fluíram de uma convicção básica: “De curvas é feito o universo, o universo curvo de Einstein!”

O arquiteto Oscar Niemeyer desenha  a catedral de Brasília. Crédito: Fundo Última Hora/Apesp
Niemeyer esboça a catedral de Brasília. (Foto: Fundo Última Hora/Apesp)

Após cinco anos de estudos na Escola Nacional de Belas-Artes, Oscar Niemeyer recebeu o diploma de engenheiro-arquiteto em 1934. Casado com Anita desde 1928, nessa época ele já trabalhava no escritório do arquiteto e urbanista Lúcio Costa, então professor e diretor da faculdade de belas-artes. Foi nesse período que Niemeyer recebeu relativa projeção nacional ao se envolver no projeto que o arquiteto francês Le Corbusier havia proposto para o prédio do Ministério de Educação e Saúde — do então ministro Gustavo Capanema e seu chefe de gabinete, Carlos Drummond de Andrade.

Logo Niemeyer foi convidado pelo governador de Minas Gerais, Benedito Valadares, a construir um cassino em Belo Horizonte. O projeto não foi adiante. Em compensação, Niemeyer conheceu um promissor candidato à prefeitura de Belo Horizonte, um médico chamado Juscelino Kubitschek, que, eleito, chamou-o para uma conversa. O novo prefeito queria expandir a malha urbana para uma região pouco habitada da cidade, e o potencial de originalidade do amigo arquiteto parecia o cartão de visitas ideal para esse projeto de desenvolvimento. Firmada a parceria, Niemeyer convidou artistas como Cândido Portinari, Alfredo Ceschiatti, José Pedrosa e Burle Marx, entre outros, que o ajudaram a dar forma ao conjunto arquitetônico da Pampulha, inaugurado em 1943.

Nesse momento, a arquitetura brasileira dava um grande salto e atraía os olhares de todo o mundo — tanto que, três anos após a inauguração da Pampulha, Niemeyer foi convidado a compor uma equipe de arquitetos envolvidos no projeto de construção da sede da Organização das Nações Unidas (ONU), em Nova York.

Se o prédio da ONU conferia ainda mais credibilidade ao trabalho de Oscar Niemeyer — que agora assinava um projeto ao lado de Le Corbusier —, sua consolidação como referência mundial da arquitetura viria dez anos depois, com a repetição daquela parceria que havia dado certo em Belo Horizonte.

Em 1956, Juscelino — agora presidente da República — foi à casa de Niemeyer, no Rio de Janeiro, com outra ideia na cabeça: “Oscar, dessa vez vamos construir a nova capital do Brasil. A mais bela capital do mundo!”. O convite foi recebido com entusiasmo, mas não aceito de pronto. Niemeyer ponderou com o presidente que seria mais democrático abrir um concurso para a escolha dos projetos da nova capital. Poucos dias após a conversa, em 30 de setembro, o "Diário Oficial da União" publicava o edital do Concurso Nacional do Plano Piloto da Nova Capital do Brasil.

De um total de 26 projetos, o júri — que contava com Israel Pinheiro, presidente da Companhia Urbanizadora na Nova Capital (Novacap), e o próprio Oscar Niemeyer, como diretor do Departamento de Urbanismo e Arquitetura da Novacap — declarou vencedor o plano piloto apresentado por Lúcio Costa, antigo professor da Escola Nacional de Belas-Artes.

Passado o concurso e com o plano piloto em forma de avião nas mãos, Niemeyer ficou responsável pelo projeto dos monumentais prédios dos palácios da Alvorada, do Planalto e do Itamaraty, do Ministério da Justiça, do Congresso Nacional, da Catedral Metropolitana e do Cine Brasília.

Todos esses edifícios já estavam de pé no dia da inauguração da cidade, em 21 de abril de 1960, porém dois projetos de Niemeyer nunca sairiam do papel: a praça da Soberania — que incluía um memorial dos presidentes da República — e a praça do Povo — que projetava um espaço aberto de lazer e um centro de convenções. Ambas ficariam lado a lado, em frente ao terminal rodoviário. Há quem diga que essa foi uma das maiores frustrações do arquiteto, para quem havia muito concreto e pouco povo naquilo tudo.

Apesar disso, não há dúvidas de que Brasília foi sua grande obra-prima. Modernista, a cidade ensaiou a concretização de uma utopia. Veio ao mundo como a “Capital da Esperança”, como disse o escritor francês André Malraux. Mas Niemeyer sempre lembrava: o desafio de projetar e realizar uma ideia na secura do planalto Central nunca foi obra de um homem só.

Certa vez, quando visitou uma exposição de sua obra no Museu de Arte Decorativa do Museu do Louvre, em Paris, fez questão de subir numa cadeira e escrever no topo de uma imagem da praça dos Três Poderes:

"Não me importa dizerem que sou o arquiteto de Brasília se ao mesmo tempo disserem que Lúcio Costa é seu urbanista. A ele coube a tarefa principal: projetar a cidade, as ruas, as praças, os volumes e espaços livres. Não sou tampouco o construtor. Construíram-na o entusiasmo de Juscelino Kubitschek, a perseverança de Israel Pinheiro e milhares de operários que, anônimos, por ela se sacrificaram mais do que todos nós!"

 

Lúcio Costa

Conhecido pela racionalidade e funcionalismo de seus projetos, o arquiteto Lúcio Costa pode ser considerado, sem exagero, o grande inventor de Brasília na forma que conhecemos hoje. As largas avenidas, as superquadras, os setores urbanos, o traçado de um verdadeiro plano cartesiano em pleno Cerrado; tudo isso virou realidade a partir de um rápido esboço feito a lápis em 1956, para o Concurso Nacional do Plano Piloto da Nova Capital do Brasil.

O urbanista Lúcio Costa, 1960. Crédito: M. M. Fontenelle/Arquivo Público do Distrito Federal
O urbanista Lúcio Costa em 1960. (Foto: M. M. Fontenelle/Arquivo Público do DF)

Filhos de pais brasileiros — a mãe era amazonense, e o pai, baiano —, Lúcio Costa nasceu na cidade francesa de Toulon em 1902. Viveu na Inglaterra e na Suíça antes vir para o Brasil em 1916, formando-se arquiteto sete anos depois pela tradicional Escola Nacional de Belas-Artes, no Rio de Janeiro. Nos anos 1930, já professor, começou a ganhar destaque em sua área. Em 1936, o presidente Getúlio Vargas o nomeou para o cargo de diretor da Belas-Artes, com uma incumbência: reformar o ensino e o currículo da faculdade.

Nesse período, Lúcio foi indicado para dirigir o projeto arquitetônico do prédio que abrigaria o Ministério de Educação e Saúde, comandado por Gustavo Capanema e seu chefe de gabinete, Carlos Drummond de Andrade. A equipe de arquitetos tinha como sócios Carlos Leão, antigos alunos — como Oscar Niemeyer e Jorge Machado Moreira — e uma referência internacional na consultoria, o francês Le Corbusier. A nova sede do Ministério da Educação e Saúde, inaugurada no centro do Rio de Janeiro em 1943, tornou-se um marco no estabelecimento da arquitetura moderna no Brasil e projetou Lúcio Costa como uma de suas maiores autoridades.

Foi nessa condição que, treze anos depois, Lúcio apresentou seu projeto para o concurso do plano piloto de Brasília, aberto por sugestão de Niemeyer para dar início à realização da meta-síntese de desenvolvimento do presidente Juscelino.

A apresentação do projeto de Lúcio Costa, feito de última hora, não tinha mais do que 30 páginas manuscritas e alguns esboços à mão. Nele, o arquiteto pedia desculpas pela “apresentação sumária”, dizia que “não pretendia competir”, mas indicava uma solução original entre os 26 projetos até então apresentados: “ela deve ser concebida não como simples organismo capaz de preencher satisfatoriamente e sem esforço as funções vitais próprias de uma cidade moderna qualquer, não apenas como “urbis”, mas como “civitas”, possuidora dos atributos inerentes a uma capital”.

O plano piloto, concebido em forma de cruz e com o eixo norte-sul arqueado — dando a impressão de “uma libélula, uma borboleta, um arco e flecha” — foi o vencedor. Nele, Lúcio Costa partia de dois princípios básicos para a organização urbana: a setorização por atividades determinadas e uma técnica rodoviária que praticamente eliminava os cruzamentos. A cidade se moveria em torno de duas grandes vias de circulação, o Eixo Monumental, de Leste a Oeste, e o Eixo Rodoviário-Residencial, de Norte a Sul.

Ao lado de Oscar Niemeyer na construção de Brasília, Lúcio Costa deu um passo significativo no desenvolvimento da arquitetura brasileira e abriu uma nova vereda para a concepção arquitetônica em todo o mundo. É bem verdade que se tratava de duas mentes muito diferentes: enquanto Niemeyer era adepto do voo livre em suas projeções, de linhas sinuosas e curvas que desafiavam os cálculos de engenharia, Costa seguia à risca a disciplina das retas, dos planos e do funcionalismo ensinado por Le Corbusier.

Por outro lado, é inegável o sucesso da parceria, que, com seu surpreendente e complementar equilíbrio, foi responsável por dar forma concreta à utopia modernista de arquitetura e urbanismo.

 

Projeto do Plano Piloto. Arquivo Público do Distrito Federal
Projeto do plano piloto de Brasília. (Imagem: Arquivo Público do DF)