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Crise de energia traz ameaça de 'apagão'

Falta de chuvas e de investimentos no setor elétrico afetam cidadãos e a economia

Todos os lares brasileiros são obrigados a reduzir em 20% os gastos com energia elétrica. Aqueles que não cumprissem a meta teriam de pagar multas e sobretaxas na conta de luz. Essa foi a medida imposta pelo governo para inibir o consumo e evitar os apagões. A população atendeu às imposições para escapar do blecaute e defender o próprio bolso.

A falta de investimentos no setor elétrico e em fontes alternativas de geração de energia levaram à mais grave crise de abastecimento da história da República, num ano em que a escassez de chuvas provocou redução drástica nos níveis dos reservatórios das hidrelétricas. O governo foi forçado a tomar medidas também junto às indústrias, que tiveram de cortar seu consumo entre 15% e 25% em relação ao período maio-julho do ano anterior. O racionamento de energia teve efeitos devastadores sobre a popularidade do presidente Fernando Henrique Cardoso e afetaram seriamente o desempenho da economia.

Desde o início do seu mandato, em 1995, a Eletrobrás vinha advertindo sobre a necessidade de investimentos em geração e transmissão de energia para atender ao crescimento da demanda. Os recursos, entretanto, caíram de R$ 20 bilhões no governo anterior para R$ 8 bilhões. Além disso, na privatização das estatais do setor não se exigiu das concessionárias aportes na geração de energia para consumo próprio. Em 1999, dez Estados da federação, além do Distrito Federal, sofreram um apagão inesperado que durou quatro horas. Em 2001, o problema se agravou substancialmente.

O presidente esforçou-se para atribuir o problema exclusivamente à falta de chuvas, mas sua popularidade caiu vertiginosamente. A ameaça de apagão provocou protestos populares e de sindicatos de trabalhadores. Em Brasília, a oposição reuniu 30 mil pessoas em frente ao Congresso Nacional, segundo a Polícia Militar, na maior manifestação contra o governo Fernando Henrique Cardoso desde 1999. Nessa ocasião, houve confronto entre policiais e manifestantes.

No final do ano, as chuvas vieram e o programa de racionamento pôde ser suspenso em fevereiro de 2002. Após o ocorrido, o Tribunal de Contas da União apurou que a crise havia custado mais de R$ 45 bilhões ao país, sendo que 60% desse valor foram pagos pelos contribuintes e o restante pelos cofres públicos.

Com a crise, o governo deu início à instalação de usinas termelétricas. Apesar de gerarem energia mais cara, elas não estão sujeitas às variações das chuvas. Funcionariam como uma reserva do sistema, acionadas no caso de redução na capacidade geradora das hidrelétricas. No governo Lula, novas hidrelétricas começaram a ser construídas nos rios da Amazônia para garantir a expansão da oferta. Além disso, as diversas regiões do país foram interligadas por sistemas de transmissão, aumentando a segurança do sistema nacional como um todo.