1º de janeiro

Guerrilha cubana derruba ditadura pró-EUA

300 revolucionários derrotam exército de 20 mil e põem Fulgencio Batista para correr

Não mais de 300 guerrilheiros avançam sobre uma força militar de 20 mil homens em direção a Havana e põem em fuga o ditador Fulgencio Batista. O movimento insurrecional iniciado seis anos antes triunfa, finalmente, sobre uma das mais sangrentas ditaduras da América Latina.

Cuba foi o último país das Américas a se tornar independente: o movimento de libertação nacional liderado pelo poeta José Martí tornara-se vitorioso apenas em 1898, com a colaboração decisiva dos Estados Unidos na guerra contra a Espanha. Esse apoio, no entanto, custou caro.

Em 1902, fora incorporada à Constituição cubana a emenda Platt, que, entre outras regalias, garantia aos norte-americanos o direito de intervir política e militarmente na ilha caso julgassem necessário.

Com a independência sob tutela, a história de Cuba nos anos seguintes foi marcada por golpes civis, ditaduras e intervenções externas. Por todas essas razões, a revolução que saiu vitoriosa em 1959 tinha duplo caráter: nacionalista e anti-imperialista, pois pretendia dar aos cubanos a soberania sobre seu próprio país e extirpar de vez qualquer tipo de dominação estrangeira.

No seu último período no poder (1952-1958), Batista vinha conduzindo um regime repressivo e corrupto, com apoio e financiamento dos EUA. A luta que resultou na sua deposição iniciou-se em 1953, quando quase 100 rebeldes, sob a liderança do jovem advogado Fidel Castro, tentaram assaltar o quartel de Moncada, em Santiago de Cuba.

Anistiados em 1955, os revoltosos remanescentes — cerca de 70 foram eliminados em combates e na prisão — exilaram-se no México. Lá, Fidel conheceu o médico argentino Ernesto Guevara de La Cerna, o “Che”, com quem fundaria o Movimento 26 de Julho (M-26) e planejaria a implantação de um foco guerrilheiro na ilha.

Oitenta rebeldes atravessaram o golfo do México a bordo do iate Granma e chegaram ao litoral cubano em 2 de dezembro de 1956, mas um pequeno contingente quase foi dizimado por tropas do Exército. Muitos foram mortos, e 22 capturados. Os 12 que escaparam tomaram a direção da serra Maestra. Após 10 dias vagando sem rumo, esfomeados e exaustos, os sobreviventes conseguiram se reagrupar.

Aos poucos, os rebeldes se reorganizaram, mobilizaram camponeses e restabeleceram contato com os membros do MR-26 e de outras organizações nas cidades. Em fins de 1958, concluíram a preparação das colunas, lideradas por Fidel, Raúl Castro, Camilo Cienfuegos e Che Guevara.

Com não mais de 250 homens, desceram a serra e tomaram várias cidades importantes, até chegar à capital. A luta se desenrolou sem envolvimento dos Estados Unidos, que subestimaram o poder de fogo dos rebeldes. Quando viu que os guerrilheiros se aproximavam de Havana, o ditador fugiu.

No dia seguinte, em Santiago de Cuba, Fidel faria seu primeiro discurso em nome da revolução vitoriosa. Antes de pôr em funcionamento um governo de caráter reformista, os revolucionários fuzilariam, no “paredón”, cerca de 100 dirigentes, policiais e torturadores do antigo regime. Depois, iniciariam uma gestão de caráter nacionalista, com a estatização de algumas empresas estrangeiras, uma tímida reforma agrária e medidas para ampliar o controle do Estado sobre a economia e a cultura da ilha.

Poucos anos depois, o analfabetismo estava erradicado de Cuba, e o sistema de saúde pública era um dos mais eficientes do mundo.

Em janeiro de 1961, o presidente dos Estados Unidos, Dwight Eisenhower, determinaria o rompimento de relações diplomáticas com Cuba. Quatro meses depois, o governo norte-americano, já sob o comando de John Kennedy, financiaria uma força militar composta por cubanos e treinada pela Companhia de Inteligência Americana (CIA) para invadir a ilha através da baía dos Porcos. Mesmo com apoio de aviões e navios de guerra dos EUA, a ação militar seria derrotada em apenas três dias pelas forças armadas cubanas, que fizeram mais de 1.200 prisioneiros.

No ano seguinte, os Estados Unidos pressionariam a Organização dos Estados Americanos (OEA) a expulsar Cuba, que só seria readmitida 47 anos depois. Também em 1962, o governo norte-americano imporia um embargo econômico a Cuba sem data para acabar — as relações diplomáticas seriam restabelecidas em 2015.

Nessas circunstâncias, a ilha se aproximaria cada vez mais da União Soviética para negociar seus produtos, principalmente açúcar e tabaco. Em 1962, Fidel Castro assumiria o caráter marxista-leninista da revolução.

A Revolução Cubana teria grande impacto nos países do chamado Terceiro Mundo. Antes do golpe de 1964 no Brasil, as Ligas Camponesas de Francisco Julião receberiam ajuda cubana. Após 1964, a ilha financiaria o grupo de militares nacionalistas liderados por Leonel Brizola. Seria também um dos principais modelos para as organizações revolucionárias brasileiras surgidas após 1967, inspirando a luta armada.