26 de novembro

Depois da eleição, FMI chega ao país

Em crise, Brasil pede US$ 4,5 bilhões e governo promete arrochar salários

O ministro da Fazenda, Ernane Galvêas, anuncia em Genebra que o Brasil negocia com o Fundo Monetário Internacional (FMI) um empréstimo de US$ 4,5 bilhões, comprometendo-se em troca a arrochar salários, aumentar impostos e restringir ainda mais as importações e o crédito interno. A decisão de recorrer ao FMI estava tomada desde setembro, quando o México entrou em moratória, mas o general presidente João Baptista Figueiredo só fez o anúncio 11 dias depois das eleições no país.

A “missão de consulta” do FMI, chefiada pela economista chilena Ana Maria Jul, já estava no Brasil desde o início do mês e foi elevada a “missão de negociação” após o anúncio de Galvêas. “O Brasil não negociou ou vendeu sua soberania”, afirmou o ministro, mas o fato é que o acordo previa o monitoramento, pela missão do Fundo, da política fiscal, monetária, cambial, do comércio externo e até da política salarial.

A dívida externa brasileira passava de US$ 60 bilhões e o país estava perto do calote. Como a maior parte da receita recessiva do Fundo já vinha sendo praticada pelo governo – e seria intensificada –, o ponto mais sensível do acordo era o arrocho salarial. A regra em vigor estabelecia reajustes semestrais com base na variação do Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC), que já era expurgado. A faixa salarial até três mínimos recebia mais 10% do índice, a título de produtividade. O acordo previa acabar com a produtividade, o que daria início a uma dura batalha dos sindicatos e das oposições.

Para formalizar o acordo, o governo do Brasil assinaria uma carta de intenções até 15 de dezembro, depois de ter adotado as medidas prometidas. O empréstimo de curto prazo seria feito pelo governo dos Estados Unidos, pelo Banco de Compensações Internacionais (BIS) e por um grupo de instituições financeiras estrangeiras, com previsão de pagamento já em 1983. Era a segunda vez ao longo da ditadura que o Brasil recorria ao FMI comprometendo-se com um programa de ajuste. A primeira foi em 1965, no período Castelo Branco.