15 de junho

Ademar anuncia a volta de Getúlio

Cumprindo acordo, governador de SP sai da disputa para apoiar ex-presidente

O palco está montado. Do alto das escadarias do Monumento da Independência, em São Paulo, o governador Ademar de Barros toma o microfone e, dirigindo-se à multidão, anuncia que abre mão de disputar a Presidência e recomenda o voto no ex-presidente Getúlio Vargas.  

Ademar cumpria assim sua parte no acordo eleitoral de duas laudas datilografadas que, três meses antes, foram levadas à fazenda de Vargas em São Borja (RS) pelos emissários Danton Coelho e Erlindo Salzano. No documento, o ex-presidente, em troca do apoio do líder político paulista, assumia dois compromissos: fundir o seu Partido Trabalhista Brasileiro (PTB) ao Partido Social Progressista (PSP) do governador; e, nas eleições de 1955, lançar seu aliado como candidato ao Catete.

A campanha de Getúlio logo ganhou as ruas. Nos camelôs, um joão-teimoso com a cara do candidato trazia embaixo a frase “Sempre de pé”. O boneco fez tanto sucesso que virou tema da marchinha carnavalesca “João Paulino”, composta por Alberto Ribeiro e José Maria Abreu e gravada por Ademilde Fonseca, a Rainha do Choro.

Mas se a candidatura de Getúlio agradou a muitos, também acabou descontentando a outros tantos. O jornalista Carlos Lacerda lançou um chamado pelas páginas do “Correio da Manhã”: “O senhor Getúlio Vargas, senador, não deve ser candidato. Candidato, não deve ser eleito. Eleito, não deve tomar posse. Empossado, devemos recorrer à revolução para impedi-lo de governar!”.

A campanha eleitoral de Getúlio Vargas começou no Rio de Janeiro, no dia 12 de agosto, com um desfile em carro aberto, ao redor do estádio de São Januário, pertencente ao Vasco da Gama.

A partir daí, a comitiva getulista percorreu, durante 51 dias, todos os estados e as principais cidades do país. Emprestaram aviões para essas viagens o próprio Ademar de Barros (sua “boate voadora”) e a companhia aérea Cruzeiro do Sul.

Da Capital Federal seguiram para Manaus, onde o palanque armado foi sacudido pelas manifestações de entusiasmo da multidão. Em Recife, diante das 300 mil pessoas que se aglomeraram para ouvi-lo, Getúlio amassou o papel com o discurso e resumiu sua fala, explicando: “Brasileiros, pernambucanos: o que aqui está escrito é o que está escrito no meu coração. E todos vocês sabem o que está escrito no meu coração: meu amor pelo povo!”

Nem precisou continuar, pois o comício acabou ali mesmo. A plateia dispersou-se aos gritos de “Viva Getúlio!”. Mas, como ele mesmo afirmou, grande parte dos presentes em seus comícios era analfabeta, não podia votar. Caso contrário, concluiu, “seria uma barbada”.

No dia 3 de outubro de 1950, cerca de 4 milhões de eleitores depositaram nas urnas o nome do ex-presidente — uma vitória indiscutível.

Dois anos depois da posse de Getúlio, Ademar de Barros romperia a aliança.