7 de fevereiro

Escolas de samba desfilam na praça 11

Evento no centro do Rio mostra o novo ritmo que vem do morro para a cidade

Acontece na praça 11 de Junho, centro do Rio de Janeiro, o primeiro desfile de escolas de samba do país, numa promoção do jornal “Mundo Esportivo”, que anunciou em suas páginas: “Terá o público oportunidade de ouvir vários instrumentos mal conhecidos pela maioria da cidade. É o caso, por exemplo, da cuíca, cujo som se destaca de todos pois é único e inconfundível”.

O samba desceu o morro e chegou à cidade, virando símbolo de brasilidade. Tudo começou no Estácio, bairro do Rio de Janeiro. Foi lá que surgiu a primeira escola de samba de que se tem notícia, a Deixa Falar — que depois se fragmentaria em Estácio de Sá, Mangueira e Portela.

Os “bambas” do Estácio inventaram um novo jeito de tocar o samba. O modo antigo, mais puxado para o maxixe, era tocado e cantado em roda, e as canções não tinham dono. Ao som do padeiro, ganzá, prato e faca e palmas, os participantes cantavam um estribilho fixo, e o resto era improvisado. O encontro de sambistas geralmente se dava na casa das “tias” baianas.

O avanço da tecnologia e a popularização do rádio trouxeram muitas mudanças no universo musical. A qualidade das gravações e da transmissão das canções melhorou. Compositores e cantores passaram a ser valorizados, a música começou a ter valor comercial — e dono. Em vez de um refrão fixo com versos improvisados, a letra já vinha completa, registrada nas gravações. Não se mexia mais nela. Roubo e compra de composições passaram a acontecer. Os cantores viraram ídolos.

No novo samba, os instrumentos básicos eram o violão, a cuíca, o surdo e o tamborim. Em vez de roda de samba, o pessoal agora desfilava, saía pelas ruas cantando e dançando.

Os novos instrumentos, base do novo samba, foram criados por sambistas do Estácio. Bide e Bernardo inventaram o tamborim. Bide também foi o responsável pela introdução do surdo. Quem levou a cuíca para a percussão das escolas de samba foi João Mina, do morro de São Carlos, vizinho do Estácio.

Para acompanhar essa transformação, a batida mudou, como explicaria anos depois Ismael Silva, um dos bambas do Estácio, ao pesquisador Sérgio Cabral: “O samba era assim: 'tan tantan tan tantan'. Não dava. [...] Aí a gente começou a fazer um samba assim: 'bum bum paticumbum prugurundum'”. A herança musical africana, que já aparecia no lundu e no maxixe, foi apropriada de um jeito mais brasileiro.

Já a praça 11 de Junho, essa não sobreviveria ao progresso e, nos anos 1940, cederia espaço à passagem de uma avenida. Mas a “praça 11”, como era conhecida, seria eternizada em versos como o berço do samba no Rio de Janeiro.