Janeiro

Exílio é a saída para milhares de brasileiros

Perseguição política e banimento provocam a maior diáspora da história do Brasil

A edição do Ato Institucional n° 5, em dezembro de 1968, e o endurecimento do regime militar provocam uma fuga em massa de brasileiros para o exílio a partir de 1969. É a segunda leva de exilados desde o golpe de abril de 1964. A primeira era formada basicamente por líderes políticos e sindicalistas ligados ao governo do presidente deposto, João Goulart.

Dela faziam parte, além do próprio Jango, os ex-governadores Leonel Brizola e Miguel Arraes; o líder das Ligas Camponesas, Francisco Julião; o ex-chefe da Casa Civil Darcy Ribeiro, o ex-presidente Juscelino Kubistchek, os ex-dirigentes do Comando Geral dos Trabalhadores (CGT) Hércules Corrêa e Sinval Bambirra, além de oficiais e sargentos expulsos do Exército. O principal destino desse primeiro grupo foi o Uruguai, onde tinham apoio de Jango e Brizola. A França também recebeu um número importante de perseguidos políticos nessa época.

A segunda leva era constituída por estudantes, sindicalistas, intelectuais, artistas, cientistas e militantes de organizações clandestinas de oposição, armadas ou não. Desse último grupo fizeram parte 130 ex-presos políticos, que foram trocados por reféns diplomatas e banidos do país. A partir de 1971, grande parte dos exilados seguiria para o Chile, então presidido por Salvador Allende, do Partido Socialista. Muitos passaram também pela Argentina e pelo México. Intelectuais e artistas foram na maioria para a França, onde havia grupos organizados de exilados políticos. Argélia, Estados Unidos, Suécia, Bélgica, Canadá, Itália, Cuba e a ex-União Soviética, entre outros países, também receberam cidadãos perseguidos.

As estimativas sobre o número de pessoas forçadas a partir durante a ditadura militar variam entre 5 mil e 10 mil, mas não há dúvida de que foi a maior diáspora da história do Brasil. Alguns dos desterrados jamais retornaram. É o caso de Josué de Castro, médico, professor, cientista político e escritor pernambucano que dedicou a vida a estudar a questão da fome. Castro era embaixador do Brasil na ONU em 1964 quando teve seus direitos políticos cassados. Morreu no exílio sem poder voltar ao país. Do golpe de 64 até a anistia de 1978, viveram longe de casa, por algum período de tempo, notáveis brasileiros. Alguns deles:

- Intelectuais e professores universitários: Celso Furtado, Josué de Castro, Florestan Fernandes, Paulo Freire, Milton Santos, Maria da Conceição Tavares, Theotônio dos Santos, Vânia Bambirra, Rui Mauro Marini, Fernando Henrique Cardoso.

- Arquitetos:  Oscar Niemeyer, Vilanova Artigas e Sérgio Ferro.

- Cientistas: Luís Hildebrando Pereira da Silva, Roberto Salmeron, Haity Moussatché, Mario Alves Guimarães.

- Diretores teatrais: Augusto Boal, José Celso Martinez Corrêa.

- Artistas plásticos: Lygia Clark, Hélio Oiticica, Rubens Gerchman, Antônio Dias.

- Poetas: Ferreira Gullar, Thiago de Mello, Vinícius de Moraes.

- Cineastas: Glauber Rocha, Rogério Sganzerla, Cacá Diegues.

- Jornalistas: Flávio Tavares, José Maria Rabelo, Samuel Wainer.

- Músicos e compositores: Chico Buarque de Holanda, Geraldo Vandré, Taiguara, Gilberto Gil, Caetano Veloso, Jards Macalé, Jorge Mautner, Nara Leão, Raul Seixas.

- Ex-líderes estudantis: Vladimir Palmeira, Luís Travassos, José Dirceu, Jean Marc von der Weid.

- Dirigentes políticos: Luís Carlos Prestes e Gregório Bezerra (PCB), Herbert de Souza e José Serra (AP) e Apolônio de Carvalho (PCBR).