15 de março

Figueiredo assume ditadura em fase final

Último general presidente herda inflação em alta, dívida externa e crise política

O general João Baptista Figueiredo toma posse para um período de seis anos na Presidência da República, recebendo como herança um país em profunda crise social, política e econômica, que vai se aprofundar ao longo de seu governo. “Juro fazer deste país uma democracia”, afirma no discurso de posse. Uma semana depois, seu governo decretaria intervenção nos sindicatos dos metalúrgicos do ABC, em greve por reajuste salarial.

Figueiredo manteve o general Golbery do Couto e Silva na chefia da Casa Civil, num sinal de que pretendia prosseguir com o projeto de “abertura” do antecessor, o general presidente Ernesto Geisel. Para o Ministério da Justiça, nomeou o senador Petrônio Portella (Arena-PI), interlocutor de Geisel com setores da oposição. Para o Ministério do Exército, foi nomeado o general Walter Pires, da “linha-dura”, e para o Serviço Nacional de Informações (SNI), o general Octavio de Medeiros, que havia feito carreira nos órgãos de repressão.

Para controlar e manter a “abertura” nos limites da ditadura, Figueiredo contava com a nova Lei de Segurança Nacional e as “salvaguardas constitucionais” editadas no final do governo Geisel.  Os próximos passos do projeto seriam a edição de uma anistia restrita e a implosão do MDB, com a criação de novos partidos. Nos dois objetivos, Figueiredo teria de ceder mais do que o planejado.

O ministro da Fazenda de Geisel, Mario Henrique Simonsen, foi deslocado para a poderosa Secretaria de Planejamento, ligada diretamente ao presidente, e para seu lugar foi nomeado o economista ortodoxo Karlos Rischbieter. Num sinal, de que poderia retomar a política econômica ambivalente do antecessor – ou mesmo o intervencionismo do general Emílio Médici –, Figueiredo nomeou para a Agricultura o ex-ministro Delfim Netto, gestor do “milagre brasileiro” do início da década, que faria sombra aos dois ministros econômicos.

O novo presidente era um oficial da Cavalaria que serviu a todos os governos da ditadura – em dois deles, Médici e Geisel, com status de ministro. Desde antes da posse até o final do governo, produziu frases rudes que traíam sua formação autoritária:

– "Um povo que não sabe nem escovar os dentes não está preparado para votar." (abril de 1978, em entrevista)

– "O cheirinho do cavalo é melhor." (agosto de 1978, num rodeio em Araçatuba/SP, quando lhe perguntaram se estava gostando de “sentir o cheiro do povo”)

– "É para abrir mesmo. E quem quiser que não abra, eu prendo. Arrebento. Não tenha dúvidas." (outubro de 1978, em entrevista)

– "Eu dava um tiro no coco." (1979, quando um menino lhe perguntou o que faria se ganhasse salário mínimo)

– "Você acha que estou brincando de democracia?" (1982, quando um repórter lhe perguntou se Leonel Brizola tomaria posse, se fosse eleito governador do Rio)

– "Bom, o povo, o povão que poderá me escutar, será talvez os 70% de brasileiros que estão apoiando o Tancredo. Então desejo que eles tenham razão, que o doutor Tancredo consiga fazer um bom governo para eles. (...) E que me esqueçam." (1985, na última entrevista como presidente).