24 de janeiro

Máquinas no chão contra Figueiredo

Fotógrafos cruzam os braços em protesto contra general-presidente

Num retrato da decadência do regime, fotógrafos credenciados que cobriam a Presidência cruzam os braços e se recusam a fotografar o presidente João Batista Figueiredo descendo a rampa do Palácio do Planalto. Naquela terça-feira de 1984, o único a empunhar sua máquina foi José de Maria França, do Jornal do Brasil, mais conhecido de como J. França, escolhido pelos colegas de trabalho para fazer o registro do protesto e distribuir a imagem para a imprensa.

O protesto foi uma reação à ordem do general-presidente proibindo fotos em seu gabinete. Durante os meses em que vigorou a proibição apenas o fotógrafo oficial do Planalto podia registrar as audiências. A única oportunidade que os fotógrafos tinham para fotografar Figueiredo era nos momentos em que ele subia ou descia a rampa.

Essa foi, no entanto, a gota d’água de uma relação conflituosa. Naquele momento, faltava menos de um ano para as eleições e o consequente fim do governo militar. Semanas antes, fotógrafos presenciaram, no gabinete presidencial, um entrevero entre o general-presidente e o então presidenciável por seu partido, Paulo Maluf. Figueiredo, que preferia Mario Andreazza como candidato do PDS, estava visivelmente mal-humorado. Maluf, ao ver os fotógrafos, pediu: “Sorria, presidente”, e ouviu uma resposta atravessada: “Estou na minha casa e fico como eu quero”. Os fotógrafos relataram a conversa nas redações e fizeram com que o diálogo chegasse às primeiras páginas dos jornais. Em resposta, Figueiredo disse que a conversa nunca tinha acontecido e proibiu a entrada de fotógrafos em seu gabinete. A proibição só seria levantada nos últimos meses do regime.

Participaram do protesto, de acordo com a aparição na foto, da esquerda para a direita: Moreira Mariz, Antônio Dorgivan, Adão Nascimento, Cláudio Alves, Sérgio Marques, Julio Fernandes Francisco Gualberto, Sérgio Borges, Beth Cruz, Élder Miranda e Vicente Fonseca, o Gaúcho. André Dusek, que na época era presidente da União dos Fotógrafos de Brasília, estava no outro lado da rua, pois não era credenciado na Presidência da República, e, por solidariedade ao protesto, não fotografou.