22 de agosto

Funerais de Juscelino reúnem multidões

No Rio e em Brasília, ditadura assiste homenagem popular a ex-presidente cassado

O ex-presidente Juscelino Kubitschek morre num acidente de automóvel no quilômetro 165 da via Dutra, próximo à cidade de Rezende (RJ). JK viajava de São Paulo para o Rio no banco traseiro de um automóvel Opala dirigido por seu  secretário e motorista particular, Geraldo Ribeiro. O carro colidiu de frente com um caminhão, provocando a morte instantânea de seus ocupantes. Os funerais e o enterro do ex-presidente reuniram multidões no Rio e em Brasília, nas maiores homenagens públicas recebidas por um político brasileiro desde a morte de Getúlio Vargas.

Eleito presidente da República em 1955 pelo voto direto, JK era um dos políticos mais populares do país na época do golpe de 1964. Senador pelo PSD, planejava candidatar-se ao Planalto nas eleições que a Constituição previa para 1965 – canceladas  pela ditadura. Juscelino apoiou a eleição indireta do general Castelo Branco, mas mesmo assim foi cassado e teve os direitos políticos suspensos em junho de 1964. Foi alvo de vários Inquéritos Policiais Militares (IPMs), acusado de enriquecimento ilícito. Exilou-se na França, de onde tentou articular um movimento civil pelo retorno ao Estado de Direito – a Frente Ampla, uma aliança com o ex-presidente deposto, João Goulart, do PTB, e o ex-governador Carlos Lacerda, da UDN, que tinha sido o maior adversário de ambos. A iniciativa não prosperou.

Quando voltou ao Brasil, em 1974, JK estava afastado da atividade política e dedicava-se a escrever suas memórias, além de plantar café e criar gado numa fazenda em Luziânia (GO), próximo a Brasília. Tinha viajado a São Paulo para receber uma homenagem de antigos colaboradores de seu governo e decidiu ir ao Rio antes de retornar a Luziânia. A colisão na estrada o deixou desfigurado e ele só foi identificado pelos documentos que trazia na carteira. Era domingo e os corpos do ex-presidente e seu motorista foram levados para o Instituto Médico Legal no Rio.

Na manhã de segunda-feira, milhares de pessoas compareceram ao velório na sede da Editora Bloch, na rua do Russel. Um grande cortejo popular levou o caixão até o aeroporto Santos Dumont. JK tinha manifestado o desejo de ser enterrado em Brasília, a capital que havia sido construída em seu governo. Multidão ainda maior recebeu o corpo no aeroporto de Brasília. O cortejo até a catedral, onde seria velado, foi acompanhado por centenas de motociclistas e taxistas e por milhares de pessoas.

No final da tarde de terça-feira, 24 de agosto, a multidão impediu que o caixão fosse levado para o cemitério em um caminhão do Corpo de Bombeiros. “O povo leva!”, gritaram milhares de populares. Cerca de 200 mil pessoas fizeram o trajeto de oito quilômetros da catedral ao cemitério, levando o caixão sobre os ombros. Cantaram o Hino Nacional e "Peixe Vivo", do folclore de Diamantina (MG), cidade natal do ex-presidente, que ele costumava cantar.

A ditadura teve de ver passar o gigantesco desfile civil em homenagem ao líder político que ela havia cassado e perseguido. Também teve de ouvir gritos de “Viva a Democracia!” durante o cortejo. Na véspera do enterro, foi decretado luto oficial por três dias, mas a bandeira nacional do Palácio do Planalto não foi hasteada a meio-pau, como determina o protocolo.

A morte de JK foi cercada por suspeitas de que teria sido um atentado político. Uma semana antes do acidente na via Dutra, repórteres tinham ido à fazenda de Luziânia averiguar boatos sobre a morte do ex-presidente. As suspeitas seriam reforçadas pelas mortes de João Goulart e Carlos Lacerda, os outros líderes da Frente Ampla, poucos meses depois de JK. O corpo do motorista Geraldo Ribeiro chegou a ser exumado em 1996 para investigações. Em abril de 2014, a Comissão Nacional da Verdade declarou não haver indícios de que Juscelino tenha sido vitima de atentado.