13 de junho

Governo incinera estoques de café

Com medida drástica, Getúlio visa conter queda dos preços no exterior

Em Santos, no litoral paulista, o dia de Santo Antônio tem um cheiro diferente: café torrado. O governo provisório mandou queimar os estoques de café, pois o preço do produto e as exportações não param de cair desde a quebra da bolsa de Nova York, em 1929. Resultado: milhões de sacas começam a virar fumaça e perfumar o ar da cidade. O objetivo é claro: reduzir a oferta e assim conter a queda dos preços internacionais do produto, o que equilibraria nossa economia e impediria a falência dos cafeicultores.

O governo assumira a gestão da produção, estocagem e comercialização do café em 16 de maio, retirando-a da responsabilidade do Instituto do Café do Estado de São Paulo. Desde então, cabe ao Conselho Nacional do Café, ligado ao governo central: a aquisição, guarda e liquidação dos estoques de café, a unificação dos métodos e normas seguidas pelos estados produtores e todo o esforço necessário para a defesa do café, responsável por mais de 70% das exportações brasileiras. Representantes dos estados produtores — São Paulo, Minas Gerais, Espírito Santo, Rio de Janeiro, Bahia, Pernambuco e Paraná — participavam da gestão do novo Conselho.

O Brasil produzia por ano café suficiente para abastecer todo o mercado mundial. Para manter a economia cafeeira, nos anos de 1920, os estados produtores — principalmente São Paulo — faziam empréstimos externos e os repassavam aos cafeicultores. Mas isso só adiou o problema, pois a produção não parou de crescer, assim como as dívidas dos fazendeiros.

Com a redução do comércio mundial, em função da crise econômica, e o fim do fluxo de capitais externos, em virtude da desestruturação do sistema financeiro internacional, ficou impossível negociar novos empréstimos. A quebradeira foi geral. A dívida do país cresceu, e nossas exportações despencaram. Havia tanto café sobrando que cogitaram usá-lo como lenha para locomotivas.

Os compositores Noel Rosa e Braguinha não perderam a oportunidade de satirizar o governo federal, que tentava transmitir otimismo com o lema “É melhor apertar agora para que a fartura venha depois”. No “Samba da Boa Vontade”, eles cantavam:

"Comparo o meu Brasil
A uma criança perdulária
Que anda sem vintém
Mas tem a mãe que é milionária
E que jurou, batendo pé,
Que iremos à Europa
Num aterro de café
(Nisto eu sempre tive fé)"

Até 1945, mais de 70 milhões de sacas de café foram queimadas no país — quantidade suficiente para garantir o consumo mundial do produto durante três anos.