13 de abril

'Desleal', diz Getúlio sobre Eurico Dutra

Em carta, presidente fala em traição e revela o que pensa do ex-ministro

Num documento escrito à mão, datado de 13 de abril de 1945, o presidente Getúlio Vargas constata o fracasso da estratégia de lançar a candidatura do general Eurico Gaspar Dutra com o objetivo de esvaziar as articulações golpistas. Segundo Getúlio, Dutra, seu então ministro da Guerra, também havia se convertido num golpista.

De acordo com o biógrafo Lira Neto, autor da trilogia “Getúlio”, o documento manuscrito por Vargas parece uma antecipação da Carta Testamento que ele deixaria na mesa de cabeceira antes de se suicidar, em 24 de agosto de 1954.

O diagnóstico de Getúlio sobre o general é duríssimo: “Esse candidato é um homem primário, instintivo, desconfiado, desleal, com ambições superiores ao seu merecimento e cercado por uma camarilha doméstica, civil e militar, que o domina sem contraste, falando ora em nome do povo, ora em nome do Exército, sem representar nem a um, nem a outro.”

E desabafa: “Senti que estava traído (...). Não poderia reagir porque bradariam, conforme o ambiente por eles criado, que eu preparava o golpe para continuar no poder”.

No dia 30 de outubro, um dia depois de ser obrigado a renunciar, Getúlio escreveria um manifesto de despedida ao povo brasileiro, cujos dois primeiros parágrafos seriam suprimidos por sugestão de seu secretário, Luís Vergara — e dos quais o país não teria conhecimento.

“Na noite de 29 do corrente, um grupo de generais chefiados pelo ministro da Guerra lançou às ruas da capital da República quase toda a tropa disponível da 1ª Região Militar, ocupando as principais artérias da cidade e os edifícios públicos e cercando o palácio da Guanabara (...) A rapidez dessas medidas e a futilidade de seu pretexto demonstram que se tratava de um plano há muito concertado, aguardando somente a oportunidade para ser posto em prática”.