13 de setembro

Goiânia vivencia pesadelo nuclear

Acidente com cápsula de césio 137 mata quatro e contamina centenas

O desleixo dos responsáveis por uma clínica radiológica de Goiânia e a desinformação de alguns sucateiros provocam o primeiro acidente radioativo do país e um dos mais graves do mundo pela extensão dos danos causados.

No prédio onde funcionara o Instituto Goiano de Radiologia, dois catadores de lixo encontraram uma máquina de radioterapia abandonada. Dela retiraram componentes metálicos e venderam o resto para o ferro-velho de Devair Alves Ferreira, que, ao abrir uma cápsula, expôs ao meio ambiente 19,26 g de cloreto de césio 137.

O pó branco parecia sal, mas no escuro brilhava e emitia uma luz azulada. Parentes e amigos foram chamados para ver o achado encantador. Alguns levaram amostras para casa. Parte do equipamento seguiu para outro ferro-velho, espalhando ainda mais a contaminação. As primeiras vítimas apresentaram sintomas como diarreia e vômitos, confundidos com os de um quadro infeccioso.

Duas semanas depois uma parte da máquina foi levada à Vigilância Sanitária e tornaria-se público o pesadelo que abalou Goiânia. Constatada a radiação numa vasta área, a Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN) foi acionada.

As autoridades sanitárias começaram a realizar num estádio o exame das pessoas suspeitas de contaminação e a ministrar drogas neutralizantes, o que não evitou as mortes. As primeiras vítimas fatais foram a menina Leide das Neves, a mulher de Devair e dois empregados do ferro-velho. A partir de então, 112.800 pessoas passaram a ser monitoradas e 249 apresentaram contaminação.

O trabalho de limpeza resultou em cerca de 6 mil toneladas de material contaminado pelo césio 137 (roupas, utensílios, materiais de construção etc.). Esse lixo radioativo está confinado em 1.200 caixas, 2.900 tambores e 14 contêineres revestidos de concreto e aço em um depósito na cidade de Abadia de Goiás, onde ficará por no mínimo 180 anos.

O desastre e suas trágicas consequências levaram a avanços nas políticas sanitárias. A partir de 1988, um decreto tornou a CNEN responsável pelas normas de segurança em estabelecimentos que lidam com materiais radioativos. No ano 2000, a Justiça determinou a indenização das vítimas e a garantia de tratamento médico e psicológico. Até hoje, mais de 900 pessoas recebem acompanhamento da Secretaria de Saúde de Goiás. O centro radiológico também foi responsabilizado pelo descarte irregular de material radioativo.