22 de fevereiro

Com aval de Getúlio, Goulart se demite

Ministro do Trabalho havia reaproximado o governo de suas bases trabalhistas

João Goulart entrega sua carta de demissão ao presidente Getúlio Vargas, oito meses depois de assumir o Ministério do Trabalho, Indústria e Comércio.

Goulart vinha enfrentando violentas investidas da UDN e dos jornais oposicionistas, que chegaram a acusá-lo, sem nenhuma prova, de insuflar greves e pretender transformar o Brasil numa “república sindicalista”. A campanha contra Goulart atingiu seu ápice com o lançamento do Manifesto dos Coronéis.

Nos oito meses em que ocupou o cargo, Jango mostrou as qualidades que levaram Getúlio a escolhê-lo como herdeiro político. Assumiu o Ministério do Trabalho em meio a uma onda grevista que ameaçava desestabilizar a base trabalhista de Vargas e prometeu fazer da pasta “uma trincheira dos trabalhadores”. Sua capacidade negociadora foi importantíssima para reabrir o diálogo com os sindicatos, obstruído no período de intensa mobilização provocada pela grave crise econômica e pela inflação, que corroía o poder de compra dos salários.

Desde o início, Goulart recebeu todo o apoio de Vargas, que chegou a afirmar, numa reunião com líderes sindicais: “Naquilo que ele [Jango] vos disser, estará me representando. Podem confiar nele, como se eu próprio fosse”.

Em janeiro, com a anuência de Vargas, Jango apresentou o projeto de duplicação do salário mínimo. Os coronéis, no manifesto, acusaram-no de comprometer as contas públicas e exigiram mais verbas para as Forças Armadas — incomodou-lhes o fato de que o aumento resultaria numa quase equiparação dos salários do funcionalismo civil e militar. Os empresários, por sua vez, afirmavam que seriam obrigados a demitir em massa porque não tinham como arcar com o aumento do salário mínimo.

Conspirou também contra Goulart o seu bom desempenho político no ministério. Era um quadro varguista jovem, com grande potencial, que deveria ser neutralizado. Diante da gritaria, ele reagiu: “Prefiro deixar o ministério a deixar de dar o salário mínimo”.

Getúlio articulou com Jango a entrega da carta de demissão. Simultaneamente, demitiu o ministro da Guerra, general Ciro do Espírito Santo Cardoso, por ter permitido a insubordinação dos coronéis.

No feriado de 1º de maio, Getúlio elogiaria Jango em pleno comício e — mais importante ainda — anunciaria a duplicação do salário mínimo.