11 de maio

Integralistas tentam derrubar Getúlio

Residência oficial é cercada; família do presidente fica cinco horas sob tiroteio

Integralistas atacam o palácio Guanabara, residência do presidente e sua família, e fazem outras operações armadas no Rio de Janeiro, capital da República.

O ataque integralista foi comandado pelo tenente Severo Fournier e começou por volta da meia-noite. Quando os rebeldes chegaram ao palácio, o chefe da guarda, o tenente fuzileiro naval Júlio do Nascimento, também integralista, abriu o portão externo aos invasores, que cercaram o prédio e cortaram luz e telefones. Uma linha, porém, continuou funcionando, e Alzira Vargas conseguiu pedir ajuda.

Getúlio comandou pessoalmente a resistência, organizada inicialmente por alguns parentes e poucos auxiliares, armados unicamente de revólveres. Durante quase cinco horas, houve intenso tiroteio, sem que nenhum tipo de ajuda chegasse para defender o presidente e sua família.

O ataque só terminou horas depois, quando Fournier resolveu fugir com seus homens. Às cinco horas da manhã, o coronel Cordeiro de Farias chegou ao palácio Guanabara, acompanhado de policiais. Depois vieram Eurico Gaspar Dutra (ministro da Guerra) e Góis Monteiro (chefe do Estado-Maior do Exército). Os integralistas a se renderam. Sete deles foram fuzilados na hora, nos jardins do palácio. O tenente Nascimento, que abrira os portões do palácio aos rebeldes, foi entregue à polícia por seu tio, o almirante reformado Oscar Espíndola, em cuja casa tentara se abrigar após o fracasso do levante.

Anos depois, Alzira Vargas do Amaral Peixoto, filha do presidente, escreveria em seu livro de memórias: “Góis Monteiro me disse nada poder fazer, porque também estava cercado em seu apartamento... Francisco Campos transmitia palavras de solidariedade admirativa e passiva... O chefe de polícia (Filinto Müller) confirmou o prévio envio de tropas e espantou-se de que não houvessem chegado ao seu destino... Não fiquei sabendo como nem por que o general Eurico Gaspar Dutra foi o único membro do governo que conseguiu atravessar a trincheira integralista. Não pude apurar também o que aconteceu depois que se retirou com um arranhão na orelha novamente transpondo o cerco do inimigo”.

O plano dos integralistas previa o ataque a edifícios públicos, estações de rádio e às residências do Ministro da Guerra e de outros generais. Seu fracasso só não foi total porque conseguiram tomar o Ministério da Marinha, ainda que por poucas horas — a resistência dos militares governistas e os disparos de canhão da ilha das Cobras os levaram à rendição logo de manhã — e ocupar a rádio Mayrink Veiga para transmitir a notícia do levante.

Quando, em 1937, Getúlio extinguira os partidos políticos, a Ação Integralista Brasileira mudou seu nome para Associação Brasileira de Cultura e imediatamente começou a articular um plano de tomada do poder.

A primeira tentativa de levante ocorrera exatamente dois meses antes, no dia 11 de março, mas foi abortada pela polícia. O governo fez muita publicidade, mas não tomou medidas para evitar outro ataque. Centenas de integralistas foram presos em vários estados, quase todos soltos logo em seguida.

Depois do ataque ao palácio Guanabara, em 11 de maio, a repressão policial seria implacável. Cerca de 1.500 pessoas seriam detidas. Cinco dias depois do cerco, o governo baixaria um decreto reduzindo os julgamentos do Tribunal de Segurança Nacional a ritos sumários, com o mínimo de prazos e testemunhas. No dia 18, um novo decreto instituiria, entre outras medidas, a pena de morte.

Muitos integralistas seriam presos e torturados, e vários outros se refugiariam em embaixadas. Plínio Salgado e Gustavo Barroso, seus principais líderes, seriam excluídos do processo por falta de provas. Plínio seria dado como desaparecido, embora continuasse morando em endereço conhecido pelas autoridades, em São Paulo. Preso no final do ano, só ficaria encarcerado por três dias. Somente um ano depois é que Getúlio decretaria seu exílio.

O historiador Edgar Carone escreveria depois que, durante todo o tempo em que esteve em Portugal, Plínio Salgado recebeu do governo brasileiro uma “mesada”.

A repressão aos integralistas e a luta entre as facções governistas — algumas simpáticas ao nazifascismo, outras aos Estados Unidos — abalaram as relações entre o governo e os nazistas. Mesmo assim, Getúlio ainda procuraria tirar partido das vantagens oferecidas pelos países divergentes.

No dia 13 de maio de 1938 — dois dias após o ataque —, Getúlio faria um discurso no palácio do Catete em agradecimento à manifestação popular em seu apoio. Segundo o presidente, “a cupidez de alguns politiqueiros expulsos do poder, habituados a viver dos seus proventos sem trabalhar, e a ambição de um grupo de fanáticos desvairados pela obsessão de impor ao país uma ideologia exótica, conluiaram-se na trama de uma ignóbil empreitada, lançando mão de todos os recursos sem olhar a sua origem nem ter em vista que comprometiam, com o auxílio recebido de fora, a própria soberania do Brasil”. E continuou: “Assim como ontem, na defesa da integridade e da honra nacional, repelimos os extremistas da esquerda, enfrentamos, hoje, sem vacilações, os extremistas da direita. Ambos se equivalem nos seus meios e objetivos, e encontram igual repúdio na opinião pública”.

Em sua fala, Getúlio fez críticas diretamente aos integralistas: “Existia, até pouco, um credo político que disfarçava os seus apetites de sinistro predomínio com as invocações mais caras e arraigadas em nossas consciências: Deus, Pátria e Família. Mas a impostura foi desmascarada. Em nome de Deus, que ordena o amor e o perdão aos próprios inimigos, ninguém pode assaltar e trucidar; a pátria exige a união de todos os brasileiros, empenhados em trabalhar pelo seu engrandecimento; e a família é incompatível com a violação de lares adormecidos, maculados pela violência e a brutalidade de assassínios”.