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(Foto: Conteúdo Estadão AE)

Josué de Castro

Com a abolição da escravatura, os negros e os mestiços saídos das senzalas, ficando com a alimentação a cargo dos seus salários miseráveis, começaram por diminuir as quantidades de alimentos de sua dieta, e já não dispunham nem de combustível suficiente para produzir o trabalho que antes realizavam. Diminuíram, então, o seu rendimento para equilibrar o déficit orgânico, sendo esta diminuição tomada pelos patrões mais reacionários como um sinal de preguiça consciente, de premeditada rebeldia do negro liberto contra o regime feudal da economia açucareira. A verdade é que a moleza do “cabra de engenho”, a sua fatigada lentidão não é um mal de raça, é um mal de fome. É a falta de combustível suficiente e adequado à sua máquina, que não lhe permite trabalhar senão num ritmo ronceiro e pouco produtivo.
“Geografia da Fome”, 1946

Josué de Castro destacou-se no cenário brasileiro e internacional por seus trabalhos ecológicos sobre o problema da fome no mundo
Josué de Castro destacou-se no cenário brasileiro e internacional por seus trabalhos sociológicos sobre a fome no mundo. (Foto: Conteúdo Estadão AE)

Josué Apolônio de Castro foi um intelectual que se destacou por combater, ao longo de sua vida, o que considerava a causa principal do atraso econômico e social do Brasil: a fome. Pioneiro na abordagem do “aprimoramento eugênico do povo brasileiro através de uma alimentação racional”, já nos anos 1930 defendia a tese de que o grande problema do brasileiro era “mal de fome e não de raça”, uma resposta às concepções racistas que viam na mestiçagem entre o índio, o negro e o português a causa determinante da suposta má formação biológica e antropológica da população brasileira. Ele foi também um dos responsáveis pela consolidação da nutrição como disciplina científica, profissão e, sobretudo, objeto de política social no Brasil.

Nascido no Recife, em 1908, Josué de Castro era filho de um retirante que havia migrado com a família para a capital de Pernambuco, fugindo da grande seca de 1877. Passou a infância e a adolescência num bairro miserável, às margens do rio Capibaribe, cercado pela lama do mangue, lugar em que “tudo é, foi ou será caranguejo”. Ali, sentiu no corpo as agruras da fome. A duras penas, mudou-se para o Rio de Janeiro e conseguiu concluir o curso de Medicina na Faculdade do Brasil em 1929.

Voltou para Pernambuco no ano seguinte e passou a dividir seu tempo entre o exercício da medicina e o cargo de professor de Fisiologia na antiga Faculdade de Medicina do Recife. Em 1935 retornou ao Rio, então capital do país, onde passou a atuar tanto na vida acadêmica quanto na burocracia estatal — foi um dos principais formuladores das primeiras políticas públicas de alimentação, conforme a orientação trabalhista do Estado Novo.

Filiado ao Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), elegeu-se deputado federal por Pernambuco em 1954 e em 1958, mas teve seus direitos políticos cassados após o golpe civil-militar de 1964.

De sua produção intelectual, composta por mais de 200 títulos, destaca-se "Geografia da Fome", de 1946, tida como a obra-síntese de sua interpretação do Brasil. Na obra, ao traçar o primeiro mapa da fome no país, ele reafirma a tese de que a reduzida capacidade laboral dos trabalhadores do Nordeste estaria relacionada à insuficiência calórica — diferentemente do Sul-Sudeste, onde, comparativamente, havia fartura de alimentos. Esta afirmação ainda hoje é válida em favor de um modelo de desenvolvimento econômico centrado na erradicação da miséria: “Não é mal de raça, é mal de fome”.

Josué foi indicado três vezes ao Prêmio Nobel: Medicina, em 1954, e Paz, em 1963 e 1970.

Josué de Castro morreu em 1973, aos 65 anos de idade, exilado em Paris.

Principais obras 

Documentário do Nordeste, 1937.

Geografia da Fome, 1946.

Homens e Caranguejos, 1967.



Geografia da Fome, de Josué de Castro