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(Foto: Arquivo Público do Estado de São Paulo)

Raymundo Faoro

De dom João 1º a Getúlio Vargas, numa viagem de seis séculos, uma estrutura político-social resistiu a todas as transformações fundamentais, aos desafios mais profundos, à travessia do oceano largo. O capitalismo politicamente orientado — o capitalismo político, ou o pré-capitalismo —, centro da aventura, da conquista e da colonização, moldou a realidade estatal, sobrevivendo, e incorporando na sobrevivência o capitalismo moderno [...]. A comunidade política conduz, comanda, supervisiona os negócios, como negócios privados seus, na origem, como negócios públicos depois, em linhas que se demarcam gradualmente.
“Os Donos do Poder: Formação do Patronato Político Brasileiro”, 1958

Crítico do Estado patrimonialista, Raymundo Faoro foi opositor da ditadura militar.
(Foto: Arquivo Público do Estado de São Paulo)

Raymundo Faoro é autor de uma das mais importantes obras sobre a formação do Estado brasileiro, "Os Donos do Poder: Formação do Patronato Político Brasileiro", de 1958, em que ele identifica na colonização portuguesa as origens de uma formação econômica e política baseada no patrimonialismo, marcada pela corrupção e geradora de entraves ao desenvolvimento do capitalismo e das relações democráticas no país.

Em 1974, ele escreveria também um estudo literário — "Machado de Assis: a Pirâmide e o Trapézio" — e diversos textos sobre a transição democrática, como "A Assembleia Constituinte: a Legitimidade Recuperada", de 1981.

Até a publicação de "Os Donos do Poder”, Faoro era um jovem e desconhecido advogado, nascido em 1925 na cidade de Vacaria (RS) e formado em Direito pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Não fez mestrado nem doutorado e não estudou Ciências Sociais, embora conhecesse os clássicos da sociologia, como Max Weber, que muito o influenciou. Atuou como advogado de 1951 a 1963, quando se tornou procurador do estado do Rio de Janeiro.

A primeira edição de "Os Donos do Poder" saiu pela Editora Globo, de Porto Alegre, e seu título seria apenas “Formação do Patronato Político Brasileiro”, não fosse a sugestão do escritor Érico Veríssimo de transformá-lo em subtítulo e nomear o livro com a expressão “os donos do poder”, cunhada no texto por Faoro e que sintetiza a obra com precisão.

Ao analisar a formação histórica do Brasil, Faoro parte da matriz histórica portuguesa, iniciada no século 14 com a Revolução de Avis e que chega ao Brasil com os portugueses, em 1500. Desde então, os negócios do Estado passaram a ser dominados por uma camada sociopolítica que fazia do poder político sua propriedade: o estamento, ou seja, os “donos do poder”. Em decorrência, formou-se no Brasil um capitalismo politicamente orientado e um Estado patrimonialista, hierarquizado de cima para baixo e governado pelo estamento. Nessa “viagem redonda”, dom João 1º (o primeiro rei da dinastia de Avis) e Getúlio Vargas (líder da Revolução de 1930) seriam pontos de uma mesma linha histórica, conectados pelo comando do estamento.

A segunda edição do livro foi lançada em 1977, ano em que Faoro foi eleito presidente da Ordem dos Advogados do Brasil, destacando-se no combate à ditadura militar. A importância da obra e a atuação de seu autor em defesa do estado democrático de direito inscreveram Faoro na lista dos intérpretes do Brasil.

Em 2000, foi eleito para a Academia Brasileira de Letras, em substituição a Barbosa Lima Sobrinho.

Morreu no Rio de Janeiro, em 2003.

 

Principal obra

Os Donos do Poder: Formação do Patronato Político Brasileiro, 1958.

Os donos do poder: formação do patronato político brasileiro, por Raymundo Faoro