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(Foto: Instituto Moreira Salles)

Antonio Candido

Comparada às grandes, a nossa literatura é pobre e fraca. Mas é ela, não outra, que nos exprime. Se não for amada, não revelará a sua mensagem; e se não a amarmos, ninguém o fará por nós. Se não lermos as obras que a compõem, ninguém as tomará do esquecimento, descaso ou compreensão. Ninguém, além de nós, poderá dar vida a essas tentativas muitas vezes débeis, outras vezes fortes, sempre tocantes, em que os homens do passado, no fundo de uma terra inculta, em meio a uma aclimação penosa da cultura europeia, procuravam estilizar para nós, seus descendentes, os sentimentos que experimentavam, as observações que faziam — dos quais se formavam os nossos.
"Formação da Literatura Brasileira", 1959

O crítico e sociólogo Antonio Candido em seu escritório. (Foto: Instituto Moreira Salles)

Antonio Candido de Mello e Souza foi um dos intelectuais mais respeitados no Brasil. Membro de uma geração impactada pela Semana de Arte Moderna de 1922, em sua obra se dedicava a ampliar a redescoberta de uma realidade genuinamente nacional, como defendia o modernismo.

Nascido em 24 de julho de 1918, no Rio de Janeiro, Antonio Candido passou a infância na cidade de Poços de Caldas (MG) e, em 1935, fixou-se em São Paulo. Opositor da ditadura de Getúlio Vargas e militante do Grupo Radical de Ação Popular, foi editor do jornal clandestino “Resistência”.

Aos 21 anos ingressou na Faculdade de Direito do Largo São Francisco, mas desistiu do curso para estudar Ciências Sociais na recém-fundada Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras (FFCL), da Universidade de São Paulo. Foi nesse período que, ao lado de colegas como Gilda de Mello e Souza — com quem se casaria em 1943 —, Paulo Emílio Sales Gomes e Décio de Almeida Prado, participou da criação da revista de crítica cultural “Clima”, alinhada com as convicções do movimento modernista.

Graduado em 1942, Candido tornou-se assistente do professor e sociólogo Fernando de Azevedo, que a seu respeito brincava: o recém-formado cientista social casara-se com a Sociologia mas tinha uma bela amante, a Literatura. E tinha razão o professor, pois a produção intelectual de seu assistente percorreria com sofisticação esses dois universos disciplinares.

Em 1954 Antonio Candido doutorou-se em Ciências Sociais com a tese "Os Parceiros do Rio Bonito", na qual resgatava, numa prosa quase literária, a formação histórica e sociológica do modo de vida caipira.

Cinco anos depois, estabeleceu-se como um dos maiores críticos culturais do país, ao publicar "Formação da Literatura Brasileira: Momentos Decisivos" (1959), obra que se vale de fundamentos sociológicos para analisar o processo de constituição de uma autêntica literatura brasileira. Nesse livro, que o elevou ao panteão dos intérpretes do Brasil, o sociólogo-crítico aponta os momentos em que, a partir do século 18, escritores brasileiros libertaram-se da herança portuguesa e passaram a afirmar uma identidade literária nacional.

Por meio de uma sólida análise da singularidade de nossa composição cultural e produzindo uma bibliografia que se estendeu até os anos 2000, Antonio Candido forneceu uma importante chave para a compreensão de alguns traços da chamada “brasilidade”, tendo em vista a construção de uma literatura feita no Brasil e para o Brasil.

Principais obras

Os Parceiros do Rio Bonito: estudo sobre o caipira paulista e a transformação dos seus meios de vida, 1954.

Formação da Literatura Brasileira, 1959.

Literatura e Sociedade, 1965.



Formação da literatura brasileira, de Antonio Candido