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(Foto: Conteúdo Estadão AE)

Câmara Cascudo

Nenhuma ciência possui, como o folclore, maior espaço de pesquisa e de aproximação humana. Ciência da psicologia coletiva, cultura do geral no homem, da tradição e do milênio na atualidade, do heroico no cotidiano, é uma verdadeira História Normal do Povo.
"Contos Tradicionais do Brasil", 1946

Luís da Câmara Cascudo em seu escritório, na cidade de Natal, Rio Grande do Norte, em 1958.
O folclorista Câmara Cascudo em seu escritório na cidade de Natal, 1958.
(Foto: Conteúdo Estadão AE)

Luís da Câmara Cascudo foi um intelectual engajado na redescoberta das culturas populares do Brasil e é tido, ainda hoje, como referência insuperável nos estudos dessa área. Sua obra transita pelos campos da antropologia, história e crítica literária, mas seu maior destaque foi como etnógrafo e folclorista.

Voltando-se para a pesquisa do que chamava de “elementos humildes e de uso cotidiano”, Cascudo rastreou a permanência de palavras, expressões, objetos materiais, práticas sociais e rituais na moldura do país modernizado. Mostrou que tradições compreendidas como “populares” e “folclóricas” não se encerravam num passado remoto nem se vinculavam a sociedades que a perspectiva evolucionista da história classificava como “arcaicas”, mas, enquanto “ruínas vivas”, sobreviviam no presente, convivendo com outras expressões simbólicas.

Qualificado pelo amigo e escritor Afrânio Peixoto como um “provinciano incurável”, Câmara Cascudo nasceu em 1898 numa família tradicional de Natal (RN). Iniciou suas atividades como jornalista em 1918, escrevendo no jornal "A Imprensa", de propriedade de seu pai.

Ao longo dos anos 1920, manteve contato com vários expoentes do movimento modernista, do qual participou. Sua correspondência com Mário de Andrade e seu envolvimento com os ideais modernistas ajudaram-no a direcionar suas pesquisas para o universo da cultura popular.

Se, na política, chegou a filiar-se à Ação Integralista Brasileira (AIB), de Plínio Salgado, no campo da cultura Cascudo apontou uma nova sensibilidade no trato das manifestações populares: não se tratava mais de compreendê-las como sinais de um presumido atraso cultural, mas como fontes legítimas de uma identidade nacional brasileira.

A primeira grande obra de Cascudo sobre o tema foi "Vaqueiros e Cantadores", de 1939. Embora já consagrado como etnógrafo, foi com a publicação do "Dicionário do Folclore Brasileiro", em 1954, que seu nome se consolidou como referência nos estudos sobre cultura popular, num país que, a partir do surgimento de nomes como Gilberto Freyre, vinha se redescobrindo e se compreendendo mais, em termos de linguagens, tradições e manifestações culturais.

Uma conhecida expressão do poeta Carlos Drummond de Andrade, perpetuada pelos pesquisadores em cultura popular, assevera seu lugar entre os intérpretes do Brasil: “consulte o Cascudo! ”.

Morreu em 1986 em Natal, cidade de onde nunca saiu.

Principais obras

Vaqueiros e Cantadores, 1939.

Antologia do Folclore Brasileiro, 1944.

Contos Tradicionais do Brasil, 1946.

Dicionário do Folclore Brasileiro, 1954.

Tradição, Ciência do Povo, 1971.

Dicionário do Folclore no Brasil, de Câmara Cascudo