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(Foto: Reprodução)

Édison Carneiro

O lugar em que os negros da Bahia realizam as suas características festas religiosas tem hoje o nome de candomblé, que antigamente significou somente as festas públicas anuais das seitas africanas, e em menor escala os nomes de terreiros, roça, ou aldeia, este último no caso dos candomblés de influências ameríndias.
Candomblés da Bahia”, 1948.

Desde seu primeiro livro, em 1936, o etnólogo Édison Carneiro tratou de propor um novo olhar sobre as raízes africanas na formação cultural brasileira. (Foto: Reprodução)

Édison de Sousa Carneiro foi um dos primeiros intelectuais no século 20 a se comprometer com o estudo sistemático das raízes africanas na formação cultural brasileira. Embora sua obra seja menos conhecida que a de outros autores da época sobre o mesmo tema — como Gilberto Freyre —, ela se destaca pela valorização da população negra no Brasil como agente histórico de transformação, ao mesmo tempo em que a reconhece a partir de sua própria história, costumes, cultura e rebeldia.

De orientação marxista, sua utopia, contudo, não se deixou levar pela fé num único caminho para o progresso, mas iluminou a busca por um futuro capaz de comportar os diferentes e tão desiguais trajetos no desenvolvimento da história.

Édison Carneiro nasceu em Salvador em 1912. Filho de Antônio Joaquim Sousa Carneiro, professor da Escola Politécnica, formou-se cedo nas principais instituições de ensino da Bahia. Logo aos 17 anos, ajudou a fundar a Academia dos Rebeldes, grupo de jovens poetas e escritores que reivindicavam “uma arte moderna sem ser modernista” e divulgavam suas ideias na revista “O Momento”. Foi nas reuniões desse grupo que Édison tornou-se amigo do escritor Jorge Amado, com quem iniciou um intercâmbio que duraria por toda a vida — tanto no que diz respeito à militância comunista quanto na descoberta das tradições afro-brasileiras.

Em 1936, já com 24 anos, Édison diplomou-se em Ciências Jurídicas e Sociais pela Faculdade de Direito da Bahia. Nesse mesmo ano publicou seu primeiro livro, "Religiões Negras", que, logo no título, já tratava de deixar claro o tom que perseguiria ao longo de toda a sua obra. Um ano depois, entre a publicação de "Negros Bantos” e “Castro Alves: Ensaio de Compreensão", responsabilizou-se pela organização do 2º Congresso Afro-Brasileiro.

Ao se mudar para o Rio de Janeiro, em 1939, Édison passou a ser vigiado de perto pela polícia do Estado Novo em suas atividades como jornalista. Apesar da perseguição política, ele não deixou de lado seu trabalho como pesquisador. Seus escritos, entretanto, só seriam novamente publicados após o fim da ditadura Vargas. Veio então o período mais criativo de sua carreira, quando publicou obras como "Candomblés da Bahia" (1948), "Antologia do Negro Brasileiro" (1950) e "A Sabedoria Popular" (1957).

Já reconhecido como um dos grandes nomes dos estudos etnológicos no Brasil, em 1961 Édison integrou o grupo de trabalho que lançou a Campanha de Defesa do Folclore. Firmando-se também como folclorista, publicou, em 1965, "Dinâmica do Folclore".

Morreu no Rio de Janeiro, em 1972, aos 60 anos.

Mesmo que "Religiões Negras" tenha vindo antes, é possível considerar "Candomblés da Bahia", de 1948, a obra-síntese da leitura sobre o Brasil traçada por Édison Carneiro. O livro convida a conhecer uma das religiões de matriz africana mais presentes no país. O olhar já não é o do observador externo, mas o de alguém iniciado na tradição, que conduz o leitor pela mão para o centro do terreiro.

Édison Carneiro recebeu, do babalorixá Procópio, seu primeiro título no candomblé: ogã de Oxóssi. São de Jorge Amado — que também se tornaria ogã pelas graças do mesmo babalorixá, apresentado por Édison — as palavras que melhor definem o camarada “feiticeiro”: “Estranho Édison Carneiro. Calado, feio, dobrado sobre si mesmo, eterno cicerone que leva os amigos ao pai de santo. [...] A imaginação o levou aos meios africanos, ao mistério das macumbas, à beleza dos candomblés. [...] conhece o assunto não só por leitura, pelo que leu nos outros, mas de [...] contato direto. Ele é ogã, ele viveu naqueles meios.”

Principais obras 

O Quilombo dos Palmares, 1947.

Candomblés da Bahia, 1948.

Antologia do Negro Brasileiro (organizador), 1950. 

O Folclore Nacional (1943-1953), 1954.

A Sabedoria Popular, 1957.

Decimália: os Cultos de Origem Africana no Brasil, 1959.

A Insurreição Praieira, 1960.

Ladinos e Crioulos: Estudos sobre o Negro no Brasil, 1964.



Candomblés da Bahia, de Édison Carneiro