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(Foto: Biblioteca da UFSCar)

Florestan Fernandes

A desagregação do regime escravocrata e senhorial se operou, no Brasil, sem que se cercasse a destituição dos antigos agentes de trabalho escravo de assistência e garantias que os protegessem na transição para o sistema de trabalho livre. Os senhores foram eximidos da responsabilidade pela manutenção e segurança dos libertos, sem que o Estado, a Igreja ou qualquer outra instituição assumisse encargos especiais, que tivessem por objeto prepará-los para o novo regime de organização da vida e do trabalho. O liberto se viu convertido, sumária e abruptamente, em senhor de si mesmo, tornando-se responsável por sua pessoa e por seus dependentes, embora não dispusesse de meios materiais e morais para realizar essa proeza nos quadros de uma economia competitiva.
A Integração do Negro à Sociedade de Classes”, 1964

Florestan em meados dos anos 1950
O sociólogo Florestan Fernandes em meados dos anos 1950. (Foto: Biblioteca da UFSCar)

Florestan Fernandes já foi chamado de “pai da sociologia brasileira” por ter sido, nas décadas de 1940 e 1950, o responsável por sistematizar essa disciplina  e estabelecê-la como ciência no Brasil. Elo entre os professores estrangeiros que fundaram a escola de Ciências Sociais da Universidade de São Paulo (USP) e as novas gerações de sociólogos — que ajudou a formar —, empenhou-se em sintonizar a sociologia com a realidade brasileira. Foi também deputado federal pelo Partido dos Trabalhadores (PT), atuando sempre como legítimo intelectual público, comprometido com o que chamava de “sociologia crítica e militante”.

Filho único de mãe solteira, Florestan nasceu em São Paulo, em 1920, e dizia com orgulho ter sido criado no “meio da ralé”. Aos 6 anos de idade já trabalhava como auxiliar de barbearia e, depois, como engraxate. Forçado a interromper os estudos no 3º ano do antigo curso primário, retomou-os aos 17 anos por meio dos antigos cursos de madureza, que lhe permitiram concluir os sete anos dos atuais ensinos básico e médio em apenas dois.

Em 1941 ingressou no curso de Ciências Sociais da USP, tornando-se um dos alunos mais admirados pelos professores. Ao se formar, compartilhou com Antonio Candido a função de assistente do professor Fernando de Azevedo. Na década de 1950 assumiu a cátedra de Sociologia 1 e a coordenação de um grupo de jovens pesquisadores — entre eles, o futuro sociólogo e presidente da República Fernando Henrique Cardoso.  

Aposentado compulsoriamente pela ditadura militar em 1969, foi professor visitante em várias universidades dos Estados Unidos. De volta ao Brasil, em 1978, tornou-se professor da Pontifícia Universidade Católica (PUC) de São Paulo, retornando à USP após a Lei da Anistia. Participou, com outros intelectuais, da criação do PT, pelo qual se elegeu deputado federal constituinte em 1986 e se reelegeu em 1990.

Florestan é frequentemente apontado como intérprete do país por sua obra "A Revolução Burguesa no Brasil", de 1975, em que associa a modernização da sociedade brasileira à marginalização da população negra. Destaca-se também "A Integração do Negro à Sociedade de Classes", tese de cátedra apresentada no início de 1964, baseada em rigoroso estudo sobre a exclusão social do negro. Nela, Florestan propõe um novo olhar sobre o passado escravista do Brasil, na contramão do chamado mito da “democracia racial”. Esse trabalho repercutiria mais tarde, no debate sobre a adoção de cotas para afrodescendentes em universidades públicas.

Morreu em São Paulo, em 1995.

 

Principais obras 

A Função Social da Guerra na Sociedade Tupinambá, 1952.

Fundamentos Empíricos da Explicação Sociológica, 1959.

A Integração do Negro à Sociedade de Classes, 1964.

A Revolução Burguesa no Brasil, 1975.


A integração do negro na sociedade de classes, de Florestan Fernandes