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Ipês conspira com multinacionais e militares

Braço clandestino da entidade banca ações contra o governo e organizações de direita

É criado o Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais (Ipês), o mais importante núcleo de conspiração golpista contra o governo João Goulart. Ele reúne os mais importantes empresários brasileiros, diretores de multinacionais, dirigentes das principais associações patronais, jornalistas, intelectuais, tecnocratas e oficiais que orbitam a Escola Superior de Guerra (ESG). Em comum, seus integrantes têm o anticomunismo e a convicção de que serão eles os formuladores de um novo projeto de desenvolvimento — aberto ao capital estrangeiro e com vocação autoritária —, que substituirá o governo nacionalista e popular de Jango.

Os membros do Ipês teriam participação estratégica na preparação do golpe de 1964 e, ao lado dos militares, protagonizariam a ocupação do Estado entre março de 1964 e março de 1972, quando a entidade seria dissolvida.

O instituto fixou sua sede no prédio comercial mais moderno do Rio de Janeiro, e manteve escritórios em São Paulo, Rio Grande do Sul, Minas Gerais e Pernambuco — estados estratégicos.

Publicamente, realizava estudos e debates sobre a realidade brasileira. Clandestinamente, preparava o terreno para o golpe: foi o formulador e executor da estratégia de desestabilização do governo, que incluiu o financiamento de uma vigorosa campanha de propaganda anticomunista e de diversos tipos de manifestação pública antigovernistas, além de apoiar, inclusive financeiramente, grupos e associações de oposição ou de extrema direita.

Sob a proteção do Ipês se abrigariam os grupos femininos responsáveis por organizar as Marchas da Família com Deus pela Liberdade, que precederiam o golpe militar — a Campanha da Mulher pela Democracia (Camde), no Rio de Janeiro; a União Cívica Feminina de São Paulo; e a Liga da Mulher Democrata (Limde), em Minas Gerais, entre outros.

O instituto atuava também em organizações estudantis, por meio do Movimento Estudantil Democrático (MED); entre os trabalhadores urbanos e os operários, pelo Movimento Sindical Democrático (MSD) e pela Confederação Nacional dos Trabalhadores Cristãos; nos grupos de camponeses e de líderes rurais, com o Serviço de Orientação Rural de Pernambuco; e, na política, associou-se ao bloco de parlamentares patrocinado pela Ação Democrática Parlamentar — uma frente destinada a desestabilizar o governo Goulart.

Com a vitória do golpe militar, os integrantes e colaboradores do Ipês manobrariam para ocupar posições-chave no alto escalão do Estado. Seu alvo prioritário seria a estrutura de planejamento governamental e de definição da política econômica, bem como os órgãos de decisão executiva ligados diretamente à Presidência da República.

Do Ipês sairia, para o primeiro governo militar, o general Golbery do Couto e Silva. Dentro do instituto, ele coordenava o Grupo de Levantamento de Conjuntura que, no período anterior ao golpe, levantou privadamente dados sobre 400 mil brasileiros. Esses dados comporiam a base para o Serviço Nacional de Informações (SNI), criado em junho de 1964 pelo próprio Golbery, seu primeiro chefe.

O instituto recebia financiamento de fontes legais e também clandestinas. Legalmente, o dinheiro vinha de doações de dirigentes de multinacionais e de associações empresariais. No balancete referente ao segundo trimestre de 1962, por exemplo, só a seção paulista dispunha de: 20 milhões de cruzeiros para atividades regulares; 15 milhões para atividades especiais; e 5 milhões para propaganda.

Clandestinamente, a Embaixada dos Estados Unidos provia o Ipês de recursos substanciais oriundos principalmente do Departamento de Estado e da Câmara de Comércio. Além disso, o Ipês recebia doações regulares de 297 corporações estrangeiras, especialmente norte-americanas (cerca de 7 milhões de dólares anuais), britânicas (4 milhões ), suecas e alemãs.