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Diários Associados

Assis Chateaubriand, também conhecido como Chatô, tornou-se um dos homens mais influentes e poderosos do Brasil nas décadas de 1940 a 1960, após construir um império de comunicações sem precedentes no país até então — os Diários Associados.

Nasceu na Paraíba e atuou como jornalista em veículos locais até se mudar para o Rio de Janeiro, em 1917, onde passou a colaborar com o “Correio da Manhã”. Em 1924 assumiu a chefia do matutino “O Jornal” e, no final daquele ano, conseguiu comprá-lo, numa operação ousada, como outras que marcariam sua trajetória. Dispondo de apenas 3% do capital necessário, obteve recursos lançando a Sociedade Anônima O Jornal, de legalidade duvidosa, angariou contribuições de alguns barões do café e, a título de honorários — era advogado —, recebeu aportes do controvertido empresário norte-americano Percival Farquhar, que na época investia em ferrovias no Brasil. De posse do jornal, incrementou-o com matérias mais curtas e ágeis, aumentando as vendas e atraindo anunciantes.

Logo depois comprou o “Diario de Pernambuco”, o “Jornal do Commercio” e, no ano seguinte, o “Diario da Noite”, de São Paulo, formando o grupo Diários Associados, o que lhe deu prestígio e poder para expandir seu império. Adquiriu o “Diario de Noticias”, a ”Revista do Brasil”, o ”Diario de S.Paulo” e o “Estado de Minas”. No auge de sua expansão, o grupo chegou a controlar 34 jornais, 36 emissoras de rádio e 18 de televisão, uma agência de notícias, uma revista semanal (“O Cruzeiro”), uma revista mensal (“A Cigarra”), várias revistas infantis e uma editora.

Lançada em 1928, a revistaO Cruzeiro” tornou-se a maior publicação semanal de variedades do Brasil entre as décadas de 1930 e 1960, com farto uso de cores e fotografias. As grandes reportagens produzidas pelo repórter David Násser e o fotógrafo Jean Manzon foram o ponto alto de seu jornalismo.  

Após obter a concessão de duas estações de rádio, a Tupi do Rio de Janeiro e a Tupi de São Paulo, em 1950, Chatô implantou a primeira emissora de televisão do Brasil e da América Latina — a TV Tupi. O conservadorismo dos veículos aparecia nos editoriais e em artigos assinados por Chatô, mas o que sustentava o império era mesmo sua capacidade de utilizá-los para obter influência, poder e vantagens, sendo por isso apelidado de “Cidadão Kane brasileiro” — uma referência ao filme de Orson Welles "Cidadão Kane" (1941), cujo personagem-título era um magnata da imprensa.

Em 1945, com o Estado Novo já debilitado, os Diários Associados apoiaram a campanha pela redemocratização. Na eleição presidencial, apoiaram a candidatura de Eduardo Gomes (UDN) contra a de Gaspar Dutra (PSD), apoiada por Vargas. Na disputa de 1950, publicaram a célebre entrevista que Vargas concedeu a Samuel Wainer em São Borja (RS), o que impulsionou sua campanha. O bom relacionamento ruiu quando Wainer deixou os Diários Associados para fundar a “Ultima Hora”, com apoio do presidente. O grupo retomou assim as teses udenistas e o combate ao trabalhismo e às bandeiras nacionalistas.

Depois do suicídio de Vargas, Chateaubriand apoiou Juscelino Kubitschek, foi contrário aos golpistas que tentaram impedir sua posse e favorável à construção de Brasília, cidade onde lançou o jornal “Correio Braziliense” e a TV Brasília. Cobrou pelo apoio, exigindo ser indicado embaixador em Londres. Na crise de 1961, defendeu a posse do vice-presidente João Goulart, mas logo se integrou à conspiração golpista. Em 1964, saudou o golpe e endossou os atos de exceção.

O estado de saúde de Chatô, já debilitado por uma trombose desde 1960, agravou-se ainda mais, acelerando a crise financeira do grupo. Chateaubriand morreu de infarto em 1968, deixando o conglomerado para um condomínio formado por 22 funcionários.