1º de outubro

Lacerda pede apoio dos EUA para golpe

Em entrevista, governador da GB prega a queda de Jango e critica Forças Armadas

O jornal norte-americano “Los Angeles Times” publica entrevista com o governador da Guanabara, Carlos Lacerda, na qual ele pede a intervenção dos Estados Unidos para interromper o governo de João Goulart, “uma versão comunista de um totalitário à moda sul-americana”. Na entrevista, reproduzida pela “Tribuna da Imprensa”, Lacerda acusa os comunistas de se infiltrarem no Comando Geral dos Trabalhadores (CGT) e no próprio governo, e ataca duramente as Forças Armadas por adotarem “posturas hesitantes” em relação a um golpe de Estado.

As declarações de Lacerda não teriam o apoio nem de seu próprio partido, a UDN, mas causariam uma forte comoção entre os ministros militares de Goulart. Eles divulgariam uma nota acusando a entrevista de “maliciosa e impatriótica” e pressionariam Jango a decretar o estado de sítio, sob a justificativa de graves riscos à ordem institucional.

Indiretamente, Lacerda teria conseguido, com a entrevista, criar sérios problemas para o presidente. O pedido de estado de sítio, enviado no dia seguinte ao Congresso, desagradaria a todas as forças políticas.

Parlamentares da UDN e empresários acusariam Jango de pretender dar um golpe e ampliar seus poderes. À esquerda, a proposta de estado de sítio enfrentaria a oposição do PTB, do PSB e dos membros do clandestino PCB. Para o CGT, um estado de sítio poderia pôr o movimento sindical e os praças das Forças Armadas no alvo dos militares.

Dois dias depois, o presidente recuaria do pedido de estado de sítio, mas o estrago já estava feito: o episódio deixara-o mais isolado e enfraquecido. As esquerdas se encolheriam, ressabiadas, e os governadores Ademar de Barros (SP) e Lacerda passariam a desafiá-lo abertamente, o que daria ânimo à conspiração civil-militar, principalmente após a adesão sub-reptícia do governador de Minas Gerais, Magalhães Pinto.