20 de maio

Lacerda vai à guerra contra 'Ultima Hora'

Udenista usa seu jornal, Rádio Globo e TV Tupi para acusar Samuel Wainer

Pega fogo a guerra da UDN contra o jornal “Ultima Hora” e seu dono, Samuel Wainer. O objetivo, mais uma vez, é atingir o presidente Getúlio Vargas. Nas bancas, tomando quatro colunas, a manchete do jornal “Tribuna de Imprensa”, de Carlos Lacerda, acusa o veículo que nascera governista e havia rapidamente conquistado espaço e público, não apenas por ser o único a defender o governo Vargas, mas também por sua linguagem inovadora, qualidade gráfico-editorial e excelentes profissionais.

“Esbanjavam dinheiro do Banco do Brasil”, dizia a manchete da “Tribuna”, relatando supostas declarações do advogado Herófilo Azambuja de que o dinheiro usado para abrir a “Ultima Hora” fora um empréstimo irregular a Wainer.

O financiamento à “Ultima Hora” seria explorado de todas as formas por Carlos Lacerda e pela UDN —como prova de tráfico de influência, de corrupção e até de simpatia de Wainer pelo comunismo. Lacerda chamaria o jornal de “antro de comunistas”, e Wainer, de agente do serviço secreto soviético, a KGB.

A única “evidência” apontada por Lacerda para sustentar essa acusação era o local de nascimento de Wainer, a Bessarábia, território romeno ocupado pela União Soviética — além disso, a lei proibia a estrangeiros possuir veículos de comunicação.

Lacerda repetia tais ilações diariamente, não só nas páginas de seu jornal, mas também nos microfones da Rádio Globo, de Roberto Marinho, e na TV Tupi, onde recebeu um programa diário do dono da emissora, Assis Chateaubriand.

Quando Chateaubriand, dono dos Diários Associados — grupo de comunicação mais forte do país —, tomou conhecimento da batalha iniciada por Lacerda, viu a oportunidade de dar fim ao crescimento de um concorrente perigoso. A pequena tiragem da “Tribuna da Imprensa” não daria à denúncia a repercussão necessária. Assim, Chateaubriand destacou o experiente jornalista David Nasser para ajudar Lacerda em tempo integral.

Tempos depois, Samuel Wainer afirmaria: “Chateaubriand é que foi meu grande adversário, não Carlos Lacerda”.

No Congresso, a UDN convocaria uma CPI (comissão parlamentar de inquérito) para apurar a legalidade do empréstimo. A conclusão foi que Wainer havia exercido tráfico de influência para obter os recursos.

A comissão, porém, não conseguiu estabelecer um vínculo entre o empréstimo e o verdadeiro alvo da denúncia, o presidente Vargas, e teve de se contentar em acusar o presidente do Banco do Brasil, Ricardo Jafet.