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Um combate desigual

Luta armada (1969 - 1972)

O combate desigual entre o aparelho militar-policial de repressão e um punhado de organizações socialistas e nacionalistas é um dos capítulos mais sombrios – e também dos mais heroicos – da resistência à ditadura militar no Brasil. A luta armada até hoje inspira interpretações românticas e, no outro extremo, recriações rancorosas. As razões para que tenha arrebanhado os jovens da época estiveram na escalada do autoritarismo a partir do golpe de 1964, na frustração com a luta política institucional e numa conjuntura mundial marcada pela Guerra Fria, lutas anticoloniais, contestação cultural e rebelião da juventude.

O golpe de 1964 interrompeu violentamente o maior processo de ascensão das forças populares no Brasil até então. A luta pelas Reformas de Base (agrária, urbana, da economia, da educação) mobilizava milhões de trabalhadores da cidade e do campo, apontando para um projeto de país que conquistou amplos setores sociais e incendiou a imaginação de intelectuais e artistas. Em 48 horas esse projeto ruiu sem que as lideranças políticas progressistas conseguissem esboçar uma reação organizada ao golpe desfechado pelos principais chefes militares, com o apoio dos grandes grupos econômicos e da maioria dos meios de comunicação, e ativa sustentação do governo dos Estados Unidos. 

O Partido Comunista Brasileiro (PCB), que era a maior organização de esquerda, pagou o preço pela frustração. Outras forças, como a Ação Popular, de inspiração católica, e os marxistas do PCdoB e da Política Operária (Polop), acusaram então o PCB de ter ficado a reboque do governo João Goulart, numa linha “pacifista de colaboração de classes”, ao invés de preparar “as massas” para lutar pela Constituição e pelas Reformas de Base. Nos anos seguintes, a  questão da luta armada se tornaria um divisor de águas na esquerda, atraindo também políticos nacionalistas e militares (marinheiros e sargentos, principalmente) atingidos pelo golpe.

No cenário da Guerra Fria, as décadas de 1950 e 1960 foram marcadas por movimentos armados de libertação nacional que levaram governos populares e socialistas ao poder na Argélia, no Congo, em Cuba. No Vietnã, com apoio da China, o governo comunista do Norte e o exército popular vietcongue enfrentavam o poderoso exército dos EUA. As teses de Frantz Fanon, sobre a revolução argelina; de Mao Tsé-tung e Ho Chi-Minh, sobre a Guerra Popular, e de Ernesto Che Guevara, sobre o foco guerrilheiro cubano, influenciavam a esquerda ao redor do mundo. 

Guerrilha e revolução eram palavras comuns no noticiário internacional, que também mostrava a luta dos negros pelos direitos civis nos EUA e os grandes protestos estudantis contra a invasão do Vietnã. Tudo isso num ambiente em que a juventude mundial se rebelava abertamente contra as estruturas tradicionais: a explosão do rock, a liberdade sexual incentivada pelo lançamento da pílula anticoncepcional, o movimento hippie e a contracultura. O mundo estava em ebulição política, social e de costumes. 

Em 1964, militares e políticos ligados ao ex-governador Leonel Brizola, exilado no Uruguai, criaram o Movimento Nacional Revolucionário (MNR). Com apoio cubano, o MNR lançou, em 1965, a primeira guerrilha contra a ditadura: o coronel Jefferson Cardim Osório tomou a pequena cidade de Três Passos (RS) e foi capturado dias depois. Também seria preso, sem combate, o núcleo do MNR instalado em 1967, na Serra do Caparaó, entre Minas Gerais e Espírito Santo.

A entrada oficial da esquerda brasileira na luta armada se dá a partir de 1967, quando foi criada em Cuba a Organização Latino-Americana de Solidariedade (Olas). O ex-deputado comunista Carlos Marighella, que estava rompendo com o PCB, participa do Congresso da Olas e recebe apoio para preparar a guerrilha rural. A Ação de Libertação Nacional (ALN), como o grupo marighelista passaria a se chamar, faz os primeiros assaltos a bancos em São Paulo e envia militantes para treinar em Cuba.

As dissidências do PCB na Guanabara (DI-GB, futuro MR-8) e em Minas Gerais (Corrente, braço da ALN) também tomariam o caminho das armas. Um terceiro grupo fundou o Partido Comunista Brasileiro Revolucionário (PCBR). A influência da Olas dividiu as bases da Polop, que criaram, em Minas, o Comando de Libertação Nacional (Colina) e, em São Paulo, a Vanguarda Popular Revolucionária (VPR). Também em 1967, a Ação Popular adotou a tese maoísta da guerra popular prolongada e passaria a se chamar Ação Popular Marxista-Leninista (APML). O PCdoB estava na linha chinesa desde 1962.