17 de janeiro

Manoel Fiel Filho morre e general é demitido

DOI-Codi repete a farsa de suicídio três meses depois da morte de Herzog

O operário metalúrgico Manoel Fiel Filho é morto sob tortura no DOI-Codi em São Paulo, para onde tinha sido levado na véspera por suspeita de ligação com o Partido Comunista Brasileiro (PCB). Da mesma forma que haviam feito na morte do jornalista Vladimir Herzog, apenas três meses antes, os militares divulgam a versão de suicídio da vítima, desta vez “com as próprias meias”. Desafiado em sua autoridade pela repetição do caso Herzog, o general presidente Ernesto Geisel exonera o comandante do 2° Exército, general Ednardo D’Ávila Mello, dois dias depois.

Manoel Fiel Filho trabalhava na Metal Arte, empresa metalúrgica da zona leste de São Paulo, onde foi abordado em 16 de janeiro por agentes do DOI-Codi que atuavam na repressão ao PCB. Numa revista à casa do operário, encontraram exemplares do jornal clandestino do partido, “Voz Operária”. No dia seguinte à prisão, um agente da repressão voltou à casa para entregar um saco plástico de lixo, que continha as roupas que Fiel Filho usava ao ser preso, e um envelope timbrado do 2° Exército com seus documentos. “Seu marido se suicidou”, disse o agente, segundo a viúva Thereza de Lourdes Martins Fiel. A família só conseguiu retirar o corpo do operário do Instituto Médico Legal depois de acatar a exigência de que velório e enterro fossem realizados discretamente. 

Detalhes da prisão, das circunstâncias da morte e das pressões sobre a família seriam revelados em 22 de janeiro, numa reportagem do jornalista Ricardo Kotscho, publicada em "O Estado de S. Paulo". Antes da reportagem, a crise político-militar em torno do assassinato estava restrita aos círculos do poder. O general presidente Ernesto Geisel havia sido alertado para a gravidade do caso pelo governador de São Paulo, Paulo Egydio Martins. O ministro do Exército, Sylvio Frota, que sugerira uma investigação interna, foi surpreendido pela decisão de Geisel de exonerar o comandante. Em protesto, D’Ávila pediu passagem para a reserva.

Um relatório do então comandante do 1° Exército (Rio), general Reynaldo Mello de Almeida, com data de 21 de janeiro, divulgado pelo jornalista Elio Gaspari, dava conta de reações à exoneração do comandante. Segundo o general, havia "consenso dos militares" sobre a ideia de que “o governo dá maior prioridade aos problemas ligados à distensão política do que aos ligados à segurança nacional”. O relatório antecipava, como consequência, a “radicalização de ações anticomunistas fora do controle militar, determinando reaparecimento de organizações paralelas atualmente inativas”. A sintomática previsão do comandante iria se confirmar naquele ano de 1976, com atentados contra instituições civis assumidos por uma suposta Aliança Anticomunista Brasileira.