13 de maio

MCP revoluciona educação popular

Movimento surgido em Recife valoriza a pedagogia da conscientização

É criado no Recife o Movimento de Cultura Popular (MCP), que se propõe a educar a população pobre da cidade e dar-lhe acesso à cultura. A iniciativa tem o apoio de intelectuais, educadores, artistas, estudantes, representantes da igreja católica e do Partido Comunista Brasileiro (PCB).

Em 1960, Miguel Arraes, então prefeito da capital pernambucana, tinha como meta principal enfrentar o subdesenvolvimento que atingia grande parcela da população. Pernambuco era um estado com enorme índice de analfabetismo e que exigia esforços urgentes para incorporar à sociedade os trabalhadores e demais setores marginalizados. 

O MCP foi produto de amplo e plural debate que Arraes promoveu entre intelectuais de esquerda, liberais e a igreja católica progressista sobre formas de enfrentar a miséria e o analfabetismo na capital. Inspirou-se no movimento francês Peuple et Culture, que propunha uma nova educação, mais próxima da cultura popular e das condições objetivas de vida dos alunos.

Inicialmente, as equipes do MCP atuavam nos subúrbios e bairros pobres do Recife. Apoiado pela prefeitura, mas com dinâmica própria, o movimento se uniria ao Movimento de Educação de Base (MEB) da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB).

A diretriz do movimento era oferecer à população analfabeta e marginalizada formas de acesso à educação e à cultura que lhe permitissem transformar, por si mesma, o contexto social no qual vivia. A entidade criou então uma rede de mobilização popular com vistas ao desenvolvimento do espírito comunitário, estimulando a emancipação política dos trabalhadores e a busca dos direitos trabalhistas.

A experiência do MCP foi incorporada pela União Nacional dos Estudantes (UNE), na passagem da UNE Volante por Recife, e esse foi um dos fatores que levaram à posterior criação do Centro Popular de Cultura (CPC), que se estenderia a outras capitais do país.

O MCP era uma sociedade civil autônoma com propósitos culturais e pedagógicos. Atuava em sintonia com o Serviço de Assistência Itinerante (SAI), que tinha o objetivo de garantir atendimento médico e saneamento básico à população.

As atividades do MCP se orientaram, principalmente, no sentido de conscientizar a população por meio da cultura e da educação de base, com a promoção de festivais de cinema e teatro, semanas estudantis, festas dedicadas ao folclore, seminários e congressos sobre temas ligados à cultura. Educar era a palavra de ordem: pelo rádio, pelo teatro, pela canção, pelo cinema, pelo folclore, pelas artes plásticas.

A metodologia dos Centros de Cultura do MCP — onde os educadores abordavam a temática que o grupo propunha — originaria um método inovador de alfabetização de adultos. Desprezando as cartilhas tradicionais, o movimento desenvolveria seu próprio material didático, baseado na realidade dos alunos.

O “Livro de Leitura para Adultos” seria baseado em três meses de pesquisa nas zonas populares de Recife. Mais tarde, o educador Paulo Freire promoveria nova revolução nesse método, abolindo totalmente as cartilhas e incorporando a cada grupo de alfabetização os elementos específicos de sua realidade. Sua Pedagogia do Oprimido nasceria no MCP. E lá também floresceriam novas linguagens do teatro e do cinema — o Teatro do Oprimido, de Augusto Boal, e a documentação da realidade social, como “Cabra Marcado para Morrer”, filme de Eduardo Coutinho.

As atividades promoviam, além da alfabetização, a independência intelectual e a postura crítica e participativa ante os assuntos da comunidade e do país, além do debate e difusão de ideais políticos e sociais. Os cursos eram ministrados por aulas transmitidas pela Rádio Clube de Pernambuco e pela Rádio Continental.

Após a vitória de Miguel Arraes nas eleições para o governo de Pernambuco em 1962, o MCP expandiria suas atividades da periferia de Recife para o interior pernambucano, ensinando os trabalhadores analfabetos a ler, escrever e conhecer a cultura do estado e a política do país, com apoio estratégico e financeiro do governo federal e da Sudene.