10 de dezembro

'Mendigos' dão show por direitos humanos

Artistas celebram os 25 anos da Declaração da ONU em auditório cercado por tropas

O show “Banquete dos Mendigos”, em homenagem ao 25º aniversário da Declaração Universal dos Direitos Humanos, reúne duas dezenas de expoentes da MPB e um grande público jovem no auditório do Museu de Arte Moderna (MAM), no Rio. Organizado pelo compositor Jards Macalé, em articulação com representantes da ONU no Brasil, o “Banquete” foi o primeiro desafio coletivo de artistas brasileiros à ditadura depois do Ato Institucional n° 5 (AI-5), no final do governo do general Médici.

Chico Buarque de Hollanda e o MPB4, Paulinho da Viola, Edu Lobo, Danilo Caymmi, Milton Nascimento, Toninho Horta, Jorge Mautner e Gal Costa; os recém-lançados Luiz Melodia, Luiz Gonzaga Jr., Raul Seixas e grupo Soma; e os veteranos Dominguinhos, Johnny Alf, Pedro Sorongo e Edison Machado apresentaram um repertório eclético, incluindo músicas de denúncia e resistência ("Pesadelo", "Bom Conselho", "Jorge Maravilha", "Roendo as Unhas", "Palavras", "Cachorro Urubu").

No intervalo entre as músicas, o escritor Ivan Junqueira, diretor de Informações da ONU no Brasil, leu cada um dos 30 artigos da Declaração Universal dos Direitos Humanos. O público aplaudiu intensamente o artigo 5º (“Ninguém será submetido a tortura...”), o artigo 9º (“Ninguém será arbitrariamente preso, detido ou exilado...”) e o 19º (“Todo homem tem direito à liberdade de expressão e opinião...”).

O ambiente no auditório era tenso, com censores na primeira fila e policiais à paisana na plateia. Tropas do Exército cercaram e intimidaram o público na saída do MAM. Agentes federais vigiavam a mesa de som para impedir a gravação do show, mas os técnicos conseguiram salvar uma fita de áudio. O álbum da RCA com o show ao vivo, lançado em 1974, foi proibido pela censura. Seria liberado apenas em 1979.