11 de agosto

Militares instalam a 'república do Galeão'

FAB assume IPM, não presta contas a ninguém e abre caminho para o golpe

O chefe da guarda pessoal do presidente Getúlio Vargas, Gregório Fortunato, chega ao quartel da PM para dar seu primeiro depoimento sobre o atentado ao jornalista Carlos Lacerda. Nesse momento, a sublevação militar já é um fato.

Na véspera, a oficialidade da Força Aérea Brasileira (FAB) se reunira no Clube da Aeronáutica e fizera do brigadeiro Eduardo Gomes seu comandante informal. Em seguida, o brigadeiro e oficiais de alta patente da Marinha e do Exército pediram ao ministro da Guerra, Zenóbio da Costa, que obrigasse Getúlio a renunciar. Mais tarde, o próprio Carlos Lacerda procuraria Zenóbio para convencê-lo a dar o golpe. O ministro recusaria ambas as propostas.

No final do dia 10, o próprio ministro da Aeronáutica, Nero Moura, levaria a Getúlio a exigência de Eduardo Gomes de que as apurações fossem conduzidas por um Inquérito Policial Militar (IPM). O presidente aceitou-a. Estava tenso e deprimido com as revelações de que, nos porões do palácio do Catete, o chefe de sua guarda pessoal havia comandado um rendoso tráfico de influência que ele até então desconhecia.

O IPM inauguraria a ”república do Galeão” — referência à base aérea que serviria como sede da investigação do assassinato do major Rubens Florentino Vaz, no desastrado atentado contra Lacerda. O major era um dos dez oficiais da Aeronáutica que, por decisão espontânea, passaram a escoltar o jornalista, após Lacerda ter sido ameaçado de morte e agredido por Euclides Aranha, filho do ministro da Fazenda Osvaldo Aranha, em pleno Hotel Copacabana Palace.

A morte de Rubens Vaz colocou os militares no centro da crise política. A responsabilidade de apuração do crime caberia à polícia civil, sob o comando do então ministro da Justiça, Tancredo Neves. A Aeronáutica, porém, não quis saber: exigiu comandar as investigações, passando a agir com absoluta independência em relação aos poderes da República e da Justiça — um comportamento tão golpista que informou os resultados do IPM primeiro à corporação, em reunião no Clube da Aeronáutica no dia 22.

Ao final da leitura do relatório, os brigadeiros assinariam um manifesto exigindo a renúncia imediata de Getúlio. Marinha e Exército acompanhariam a posição da Aeronáutica. A resposta do presidente, porém, seria bem clara: “Não renuncio; daqui só sairei morto, e o meu cadáver servirá de protesto contra essa injustiça!”