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Morte de Fleury é cercada de mistério

Torturador do Dops morre no mar de Ilhabela e é enterrado sem autópsia

O delegado da polícia civil de São Paulo Sérgio Paranhos Fleury morre no mar em Ilhabela (SP), onde fazia uma passeio de lancha. Fleury foi um dos mais sanguinários agentes da repressão. Chefiou o Esquadrão da Morte, que assassinava pobres supostamente criminosos, comandou o Dops em São Paulo e atuou na Operação Bandeirante (1969) e no DOI-Codi.

Em 1969, depois de torturar frades dominicanos ligados à Ação Libertadora Nacional (ALN), Fleury preparou uma emboscada e assassinou o líder do grupo, Carlos Marighella. Em 1971, torturou militantes do Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR-8) até localizar o refúgio do ex-capitão Carlos Lamarca, assassinado numa emboscada no sertão da Bahia.

Em 1976, o delegado participou da Chacina da Lapa, em que dois dirigentes do PCdoB foram fuzilados numa casa do bairro paulista e um terceiro foi capturado e morto sob tortura. O policial recebia proteção especial da ditadura, que em 1971 chegou a modificar a legislação penal para evitar que ele fosse preso pelos crimes do Esquadrão da Morte. A chamada Lei Fleury, que permite a condenados recorrer em liberdade, vigora ainda hoje.

Sérgio Fleury era considerado o maior arquivo vivo do esquema de repressão, o que gerou suspeitas em torno de sua morte. Não foi realizada autópsia. Ironicamente, o atestado de óbito em que constou a morte por afogamento seguido de parada cardíaca foi assinado pelo médico legista Harry Shibata, o mesmo que atestou a farsa do suicídio do jornalista Vladimir Herzog, morto sob tortura no DOI-Codi em 1975.