1º de janeiro

O Brasil se reencontra na posse de Lula

Nunca antes na história deste país...

Nunca antes na História do Brasil houve tão grande festa popular para saudar a posse de um presidente da República. Nunca antes, afinal, o presidente havia sido um trabalhador, um nordestino retirante, um vendedor de amendoim, um sindicalista que liderou greves na ditadura ou o fundador de um partido comprometido com os trabalhadores.

Desde cedo uma multidão vestindo vermelho e segurando bandeiras com a estrela petista ocupou a Esplanada dos Ministérios para ver e, se possível, tocar Lula. Alguns conseguiram, para desespero dos seguranças. As estimativas sobre o número de participantes variaram de 150 mil a 250 mil pessoas, mas foi, com certeza, a maior manifestação ocorrida em Brasília desde os funerais de Juscelino Kubitscheck.  Dirigindo-se para o Congresso, onde prestaria juramento, Lula circulou no meio do povo exultante a bordo de um Rolls-Royce da Presidência, ao lado da mulher, Marisa Leticia.

No discurso no Congresso, Lula resumiu numa passagem aquele momento marcante da história política brasileira.  ''Quando olho a minha própria vida de retirante nordestino, de menino que vendia amendoim e laranja no cais de Santos, que se tornou torneiro mecânico e líder sindical, que um dia fundou o Partido dos Trabalhadores e acreditou no que estava fazendo, que agora assume o posto de supremo mandatário da nação, vejo e sei, com toda a clareza e com toda a convicção, que nós podemos muito mais.''

Interrompido 27 vezes por aplausos, Lula afirmou ainda que o Brasil se reencontrava consigo mesmo e teria que buscar forças para ampliar o horizonte do possível: destacou como grandes tarefas o combate à fome, propondo um mutirão cívico como o que, no passado, permitira a criação da Petrobras ou conduzira às lutas memoráveis pela redemocratização. Prometeu combate implacável à corrupção e a construção de pactos sociais para conduzir reformas no campo, na área trabalhista, no sistema tributário e na Previdência. A palavra-chave de seu discurso foi “mudança”, repetida algumas vezes. O presidente eleito havia chorado ao ensaiar o discurso, como fizera no dia da eleição e da diplomação, mas prometeu à mulher que se conteria na solenidade. E foi capaz, apesar de emocionado.

Do Congresso seguiu para o Planalto, onde recebeu a faixa presidencial de Fernando Henrique Cardoso em clima afável e descontraído. Chegaram a se embaraçar com a faixa quando o presidente que saía abaixou-se para apanhar os óculos que caíram, tornando o ato ainda menos protocolar.  Novamente o mar vermelho de gente agitou-se, na Praça dos Três Poderes, com a fala de Lula no parlatório. O novo presidente deixou o Palácio no final do dia depois de empossar o ministério e posar para a foto oficial.

Um novo tempo estava começando para a democracia brasileira, que passaria a significar não só uma forma de governo baseada na vontade da maioria, mas o tempo da inclusão dos alijados da cidadania, da redução das desigualdades, de maior crescimento e distribuição da renda e de afirmação do Brasil como nação no cenário internacional.