14 de setembro

O comando de Ulysses: 'Navegar é preciso'

MDB desafia ditadura e lança anticandidato, em campanha por Constituinte e anistia

No mais ousado desafio político à ditadura até então, a Convenção Nacional do MDB lança o deputado Ulysses Guimarães “anticandidato” à Presidência da República e como vice o jornalista e ex-governador de Pernambuco Barbosa Lima Sobrinho. Não havia chance de vitória num Colégio Eleitoral em que a Arena tinha mais de 80% dos votos, mas a proposta era denunciar o regime ditatorial, a violação de direitos e a farsa eleitoral.

Foi o que anunciou Ulysses na convenção: “Não é o candidato que vai percorrer o país. É o anticandidato, para denunciar a antieleição, imposta pela anticonstituição que homizia o AI-5, submete o Legislativo e o Judiciário ao Executivo; possibilita prisões desamparadas pelo habeas corpus e condenações sem defesa, profana a indevassabilidade dos lares e das empresas pela escuta clandestina, torna inaudíveis as vozes discordantes, porque ensurdece a nação pela censura à imprensa, ao rádio, à televisão, ao teatro e ao cinema”. 

A plataforma do anticandidato era centrada na revogação do Ato Institucional n° 5 (AI-5), no retorno do país ao Estado de Direito com liberdades democráticas e pela convocação de uma Assembleia Constituinte. Essas reivindicações iriam unificar a oposição democrática nos anos seguintes, atraindo progressivamente os setores da esquerda que faziam a autocrítica da luta armada. 

No discurso da convenção, Ulysses deu um passo adiante e colocou na pauta a questão da anistia aos presos, cassados e banidos, defendendo “a imperiosidade do resgate da enorme injustiça que vitimou, sem defesa, tantos brasileiros paladinos do bem público e da causa democrática. Essa justiça é pacto de honra de nosso partido e seu nome é anistia”. A coragem política de Ulysses nesse episódio iria consolidar sua liderança no movimento pela redemocratização.

Mesmo com a imprensa sob censura, Ulysses e Barbosa Lima percorreram o país divulgando as palavras de ordem e legitimando o MDB como oposição institucional. O discurso de lançamento da anticandidatura é uma das melhores peças da oratória política brasileira depois do golpe de 1964, intitulado “Navegar é preciso, viver não é preciso”. Esta frase foi atribuída pelo historiador grego Plutarco ao general romano Pompeu (106-48 a.C.), para animar seus marinheiros. O dístico seria retomado no século 20 pelo poeta português Fernando Pessoa e daí chegou a um fado de Caetano Veloso lançado em 1969.

Assim terminava o discurso de Ulysses: “A caravela vai partir. As velas estão paridas de sonho, aladas de esperanças. O ideal está ao leme e o desconhecido se desata à frente. No cais alvoroçado, nossos opositores, como o velho do Restelo de todas as epopeias, com sua voz de Cassandra e seu olhar derrotista, sussurram as excelências do imobilismo e a invencibilidade do establishment. Conjuram que é hora de ficar e não de aventurar. Mas no episódio, nossa carta de marear não é de Camões e sim de Fernando Pessoa ao recordar o brado: 'Navegar é preciso. Viver não é preciso'. Posto hoje no alto da gávea, espero em Deus que em breve possa gritar ao povo brasileiro: 'Alvíssaras, meu capitão. Terra à vista!' Sem sombra, medo e pesadelo, à vista a terra limpa e abençoada da liberdade".