16 a 28 de outubro

Crise dos Mísseis põe o mundo em suspense

Armamentos soviéticos em Cuba, avião dos EUA abatido: o futuro está ameaçado

Armamentos nucleares soviéticos de alcance médio são revelados em Cuba. O governo dos EUA divulga fotos aéreas do país caribenho, revelando a existência de aproximadamente 40 silos para abrigar mísseis nucleares.

Tinha início a Crise dos Mísseis. Oito dias depois, o presidente John Kennedy iria à televisão e revelaria ao mundo que a União Soviética instalara armamentos nucleares na ilha situada a 150 quilômetros de Miami.

Esses armamentos eram a resposta do governo soviético às cinco bases instaladas na Turquia em abril, pelos Estados Unidos, capazes de lançar mísseis sobre as cidades do sul da URSS e destruí-las. Além disso, a potência capitalista havia reiniciado os testes atômicos no Pacífico, o que contrariava o governo de Nikita Kruschev, e vinha intensificando as operações navais no mar do Caribe, com o intuito de intimidar o governo cubano.

Contra as bases norte-americanas na Turquia, Cuba era o único país que oferecia a Moscou as condições geopolíticas estratégicas para o revide. Para a URSS, perder Cuba significaria um sério golpe na capacidade de negociação de Moscou, além de prejudicar a imagem internacional do regime. Para Cuba, os armamentos soviéticos eram uma forma de prevenir novos ataques dos EUA, como a fracassada tentativa de invasão à baía dos Porcos.

Em maio, a União Soviética apresentara a Cuba a proposta de instalação dos armamentos na ilha. No final de agosto, Fidel Castro enviara Ernesto Che Guevara a Moscou para apresentar as condições cubanas para o acordo. Nele, estavam previstos, além do fornecimento dos 140 mísseis de defesa aérea e outros armamentos, a instalação de cinco regimentos com 60 mísseis e 40 rampas para lançamento de mísseis, quatro regimentos motorizados, dois batalhões de tanques, mais de 250 carros blindados, modernos aviões de caça, 42 bombardeiros, foguetes Luna com cargas nucleares, 12 unidades de defesa antiaérea e mais de 40 mil soldados.

O plano da União Soviética incluía ainda a construção de uma base de submarinos e sete porta-foguetes com ogivas de 1 megaton. Guevara queria que o acordo se tornasse público, mas o Krêmlin recusou.

Quando a CIA descobriu o transporte desses armamentos, o governo dos EUA oscilou entre intervir militarmente ou não. Uma ação drástica contra as instalações soviéticas provocaria ações similares contra as numerosas bases norte-americanas, particularmente na Turquia e no sul da Itália.

Kennedy sempre fora contrário a uma intervenção direta, mas o Partido Republicano, na oposição, o manteria pressionado, passando aos senadores e à imprensa informes sobre as instalações militares que a URSS construía em Cuba.

A política interna norte-americana teria peso significativo na crise. O país estava em plena campanha eleitoral, e o Partido Democrata, desmoralizado, desde a fracassada invasão da baía dos Porcos, no ano anterior. O objetivo de Kennedy era superar a crise para, assim, obter maioria democrata no Congresso, assegurar sua reeleição em 1964 e, se possível, transmitir o cargo ao irmão Robert Kennedy em 1968.

De olho nesse cenário, Kennedy ponderou que o objetivo imediato não era derrubar Castro, mas remover os mísseis instalados em Cuba, o que só seria alcançado pela guerra ou pela diplomacia.

A crise dos mísseis soviéticos em Cuba entraria para a história como o momento mais tenso e dramático da Guerra Fria, que atingiria o ponto máximo no “sábado negro”, dia 27, quando seria abatido um dos aviões-espiões americanos que faziam incursões sobre a ilha. Nas horas seguintes, a iminência de uma Terceira Guerra Mundial, agora nuclear, pairaria nos céus do planeta.

A diplomacia, felizmente, venceria. O presidente John Kennedy aceitaria a sugestão do embaixador norte-americano na ONU, Adlai Stevenson, e ofereceria a Nikita Kruschev um acordo: os soviéticos retirariam os mísseis nucleares de Cuba e, em troca, os norte-americanos removeriam os mísseis do território turco. Seria acordada também a revogação do bloqueio naval do Atlântico a navios soviéticos, e ainda o compromisso de não invadir a ilha caribenha. No dia 28 de outubro, Kruschev aceitaria a proposta.

Os EUA, a União Soviética e o Reino Unido assinariam, no ano seguinte, um acordo que permitiria apenas testes nucleares subterrâneos, proibindo explosões na atmosfera, em alto-mar e no espaço.

Em 1968, seria aprovado o Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares (TNP), pelo qual os países detentores de artefatos nucleares se comprometeriam a limitá-los, e os não detentores ficariam proibidos de desenvolvê-los.