30 de junho

'Pai nosso, o seu povo passa fome'

Papa atrai multidões no país, prega justiça social, mas enquadra as CEBs

O papa João Paulo 2° chega ao Brasil para uma visita de 12 dias, a primeira de um sumo pontífice ao país. Suas aparições em 14 cidades reuniram multidões, num total de 13 milhões de pessoas. A visita deu visibilidade mundial aos problemas sociais do país, como o desemprego e a miséria. O papa esteve nas favelas do Vidigal, no Rio, e de Alagados, em Salvador, viu a seca no Nordeste e encontrou trabalhadores no estádio do Morumbi, em São Paulo. Mesmo tendo enquadrado a chamada “igreja progressista” e criticado o que considerava “ação politica” das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), a visita de João Paulo 2° foi incômoda para a ditadura.

Em suas falas, o papa defendeu a reforma agrária e a liberdade sindical. No encontro com os trabalhadores, afirmou que “o bem comum da sociedade requer, como exigência fundamental, que a sociedade seja justa”. E acrescentou: “Repelir a luta de classes é também optar resolutamente por uma nobre luta a favor da justiça social”. No Morumbi, João Paulo 2° recebeu uma carta do líder da oposição metalúrgica, Waldemar Rossi, denunciando o assassinato de Santo Dias (1979) e outros trabalhadores pela repressão brasileira. No Recife, defendeu a reforma agrária: “Os bens da terra são de todos”. Em Teresina, repetiu o que dizia uma faixa da multidão: “Pai Nosso, o povo tem fome”.

O polonês Karol Wojtila havia sido escolhido papa em 1978 e logo se tornou um importante ator político global. João Paulo 2° projetou e apoiou o movimento Solidariedade, chefiado pelo operário católico Lech Walesa, o que contribuiria para a queda dos regimes comunistas no final da década de 1980. Ao longo de seu pontificado, que durou 26 anos, João Paulo 2° combateu a Teologia da Libertação e tentou enquadrar seus maiores expoentes, como os bispos brasileiros dom Paulo Evaristo Arns e dom Luciano Mendes de Almeida.