12 de agosto

País descobre a tragédia da seca

Flagelados ocupam o governo do Ceará; 3,5 milhões morrem de fome

Cerca de cem flagelados da seca do município de Itapipoca ocupam o Palácio da Luz, sede do governo do Ceará, pedindo comida. Dois dias depois, 5 mil flagelados invadem e saqueiam a sede da Companhia Brasileira de Alimentos (Cobal) em Canindé (CE), levando alimentos e dinheiro.  Além da fome, os flagelados se revoltavam contra as ações do governo federal, que privilegiavam os grandes proprietários de terra. 

Chegava ao auge o drama dos flagelados da maior seca do século 20, que, segundo a Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste (Sudene), em cinco anos matou de fome e de doenças da desnutrição 3,5 milhões de pessoas, na maioria crianças. A longa estiagem começou em 1979 e foi se agravando ano após ano. Em 1983, havia 10 milhões de flagelados da seca, o equivalente a mais de um terço da população do Nordeste.

O governo respondeu à crise criando os Bolsões de Emergência, frentes de trabalho para a construção de barragens, poços e estradas nas maiores propriedades de terra. As obras ficavam em poder dos proprietários. Os flagelados que conseguiam um lugar nas frentes recebiam do governo 15 mil cruzeiros por mês, o equivalente a um terço do salário mínimo. Corrupção e abuso do trabalho, principalmente de mulheres e crianças, eram regras nesses bolsões. Tornaram-se frequentes os saques de legiões famintas a caminhões da Cobal nas estradas e nas pequenas cidades, onde armazéns também eram alvos.

A ocupação do Palácio da Luz chamou a atenção para a tragédia da seca. No dia 26 de agosto, o "Jornal do Brasil" publicaria a foto do repórter fotográfico Delfim Vieira, que se tonou o símbolo da tragédia: o sertanejo Chico Marcolino, de Apuiarés, exibindo um pequeno calango que acabara de matar. O lagarto era tudo o que ele e a família tinham para comer naquele dia. A grande seca se prolongou até 1984.