2 de maio

País tem democracia 'relativa', diz Geisel

Na fase mais autoritária do governo, general nega haver ditadura no Brasil

Um mês e um dia depois de fechar o Congresso e decretar o Pacote de Abril, o general presidente Ernesto Geisel diz a jornalistas franceses que o Brasil é uma democracia “relativa”. “Todas as coisas no mundo, exceto Deus, são relativas”, disse Geisel. “Então, a democracia que se pratica no Brasil não pode ser a mesma que se pratica nos Estados Unidos da América, na França ou na Grã-Bretanha”. Uma semana depois, em entrevista à também francesa RTF 2, reafirmou: “O Brasil vive um sistema democrático dentro de sua relatividade.”

Nas duas entrevistas, Geisel negou a prática de torturas e assassinatos políticos no país. Fez essa afirmação seis meses depois do assassinato de três dirigentes do PCdoB na Chacina da Lapa, 18 meses depois da morte sob tortura do operário Manoel Fiel Filho e 20 meses depois da morte sob tortura do jornalista Vladimir Herzog – três crimes políticos de conhecimento público, praticados por agentes do DOI-Codi do 2° Exército em São Paulo.

Geisel utilizou o conceito de “democracia relativa” no período mais autoritário de seu governo, quando as passeatas de estudantes eram violentamente reprimidas, deputados da oposição eram cassados, eleições para governador canceladas e a precária Constituição alterada para garantir o controle do governo sobre o Congresso. No primeiro semestre de 1977, quando o presidente deu as entrevistas, o projeto de “distensão lenta, gradativa e segura” dava lugar a uma série de medidas arbitrárias com o objetivo de prolongar a vida da ditadura.