3 de março

Preso o escritor Graciliano Ramos

Polícia leva o autor de 'Caetés' sem que acusação alguma seja formalizada

O autor de “Caetés” e “S. Bernardo”, funcionário da Secretaria de Educação de Alagoas e ex-prefeito de Palmeira dos Índios é preso em sua residência, em Maceió, sem que nenhuma acusação tenha sido formalizada.

Graciliano ficaria encarcerado até janeiro do ano seguinte. De Maceió, logo foi transferido para o Recife e de lá, com outros 115 presos políticos, para o Rio de Janeiro, no navio “Manaus”.

Em 27 de outubro de 1953, a Livraria José Olympio Editora publicaria, postumamente (Graciliano havia morrido em janeiro daquele ano, aos 60 anos), sua obra autobiográfica “Memórias do Cárcere”, o mais contundente relato das violências nas prisões da ditadura Vargas. 

O relato, que narra os dez meses em que o autor esteve preso, fala de nada menos que 237 personagens (segundo levantamento do cineasta Nelson Pereira dos Santos, que levou o livro às telas em 1984), com os quais Graciliano dividiu celas no navio-prisão, em delegacias, na Colônia Correcional Dois Rios, em Ilha Grande e na Casa de Detenção do Rio de Janeiro. Os presos, políticos ou comuns, são retirados do anonimato: os primeiros, resgatados da violência da tortura e do cárcere; os últimos, da miséria que antecedeu a dupla marginalidade — social e legal.

“Memórias do Cárcere” teria ampla repercussão política e causaria desconforto ao então Partido Comunista do Brasil (PCB), por denunciar a colaboração do seu antigo secretário-geral, Antônio Maciel Bonfim (o “Miranda”), com a polícia política do governo Vargas. Também seria um incômodo para o segundo governo de Getúlio Vargas, que ascendera ao poder pelo voto três anos antes do lançamento do livro.

No meio intelectual, todavia, “Memórias do Cárcere” nasceria como um clássico. Seria saudado por Antonio Candido, Gilberto Freyre, Oswald de Andrade, José Lins do Rego e muitos outros, vendendo 10 mil exemplares em apenas 45 dias.