4 de novembro

Prestes e Getúlio dividem palanque

Ex-presidente é aplaudido, mas polícia dispersa multidão com tiros e bombas

O ex-presidente Getúlio Vargas e o secretário-geral do Partido Comunista do Brasil, Luís Carlos Prestes, dividem o palanque do vale do Anhangabaú, no centro de São Paulo, em comício do candidato a vice-governador Carlos Cirilo Júnior. Cirilo concorre, pelo PSD, contra Luís Gonzaga Novelli Júnior, genro do presidente Dutra, ambos também do PSD e com o apoio do governador Ademar de Barros.

Vargas havia recomendado o voto em Dutra em 1945, mas depois rompera com o presidente, por discordar de sua política econômica liberal e da repressão do governo aos sindicatos.

Por causa desse rompimento, o ex-presidente saiu da sua fazenda em São Borja para fazer campanha contra Novelli. Prestes, por sua vez, reagia à pressão que o presidente Dutra exercia sobre o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) para cassar os mandatos dos parlamentares comunistas — o PCB fora posto na ilegalidade pelo tribunal em maio, e os congressistas eleitos pelo partido atuavam na semiclandestinidade, aguardando a decisão judicial sobre seus mandatos.

Na ditadura de Vargas, Prestes havia ficado preso por nove anos e vira sua esposa, Olga Benário, ser entregue, grávida, à Alemanha nazista. No palanque do Anhangabaú, Getúlio e Prestes evitaram contato. O ex-presidente discursou e, sob aplausos, foi embora. Quando a fala de Prestes foi anunciada para as cerca de 10 mil pessoas presentes, ouviram-se tiros e bombas — com truculência, a polícia passou dispersar a multidão, deixando muitos feridos. Prestes e Cirilo tiveram de deixar o palanque protegidos pelos militantes.

Apesar da gravidade da violência no vale do Anhangabaú, a grande imprensa preferiu enfocar o inusitado encontro no palanque sob outra óptica. Alguns jornais publicaram uma fotografia do evento editada, dando a impressão de que o líder comunista, numa atitude subalterna, segurava o microfone para que Vargas discursasse. Na verdade essa mão era de outra pessoa, mas valia tudo para desgastar Getúlio e Prestes.

As reações ao encontro foram diversas. O escritor Oswald de Andrade, que já não era mais filiado ao PCB desde a aproximação deste com os queremistas em 1945, publicou uma crônica “Correio da Manhã” denunciando o absurdo da aliança em favor da eleição de Cirilo Junior. Já “O Estado de S. Paulo”, jornal fortemente antivarguista, afirmou em editorial: “Não acreditamos que São Paulo, ainda com tantas feridas abertas pelos golpes ditatoriais, se esqueça do que padeceu para, mais uma vez, iludido na sua boa-fé, entregar-se e entregar o Brasil à ambição desmedida e estéril do mais atrevido caudilho que já surgiu em terras brasileiras.”

De fato, Vargas não convenceu os eleitores paulistas, que acabaram elegendo Novelli Júnior.