2 de março

'Queremos Getúlio' ocupa as ruas do país

Batendo panelas, populares invadem comícios da oposição para defender presidente

Surpreende em São Paulo a reação popular contra um comício oposicionista. Estudantes da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco fazem na praça da Sé uma manifestação pela democratização do país e contra Vargas e o Estado Novo, pedindo até a morte do ditador. Radicalizando o discurso, o presidente do Centro Acadêmico XI de Agosto, Rui Nazaré, insulta o chefe do governo e conclama: “Trabalhadores e estudantes de São Paulo, avante! Pela democracia!”. Esses ataques produzem, todavia, efeito contrário — indignadas, centenas de pessoas humildes cercam o comício batendo panelas e gritando palavras de apoio a Vargas: “Vivam os trabalhadores!” e “Nós queremos Getúlio!”.

A primeira reação do estudante orador foi aumentar o tom e a fúria das palavras, porém os populares vieram com mais força, até que os estudantes, acuados, abandonaram a praça.

A reação deixou perplexas a oposição e a imprensa. Pelos jornais, os manifestantes queremistas foram chamados de arruaceiros, desordeiros, bêbados, exaltados e violentos. No mês seguinte, todavia, quando a imprensa sindical passou a publicar opiniões de entidades e cidadãos comuns sobre os temores de um Brasil sem Getúlio, a inequívoca lógica dessas opiniões tornou-se cristalina: os trabalhadores temiam que, se Getúlio fosse embora, seus detratores, uma vez no poder, suprimissem a legislação que, desde 1930, vinha lhes conferindo diversos direitos trabalhistas.

A partir dessas publicações e das reações dos trabalhadores nos comícios da oposição, lançando nas ruas o slogan “Queremos Getúlio”, o movimento passou a ser designado como “queremismo”.

As manifestações populares seriam espontâneas até a abertura do primeiro comitê pró-candidatura de Vargas, no Rio Grande do Sul. A partir de então, foram criados escritórios em todo o país. Um “comício-monstro” realizou-se no largo da Carioca, no Rio de Janeiro, no dia 20 de agosto, e se desdobrou numa passeata até a sede do governo, o palácio do Catete, quando foi entregue a Getúlio um documento pedindo-lhe que concorresse às eleições. O prazo legal para que o presidente, se quisesse concorrer, deixasse o governo venceria em alguns dias. No entanto, ele não renunciou.

Já engrossado pelo Partido Comunista do Brasil (PCB), de Luís Carlos Prestes, o movimento queremista passaria, então, a atuar em favor da tese de que Getúlio deveria convocar imediatamente uma Assembleia Nacional Constituinte e ficar no poder até que a nova Constituição fosse promulgada. Era a campanha “Constituinte com Getúlio”.