11 de abril

Regime faz expurgo nas Forças Armadas

Golpistas afastam, cassam e prendem militares legalistas e democratas

O Ato Complementar nº 3 do Comando Supremo da Revolução expulsa das Forças Armadas 122 oficiais (77 do Exército, 14 da Marinha e 31 da Aeronáutica). Da primeira lista de cem cassações, divulgada dois dias antes, já faziam parte seis oficiais superiores que apoiavam o governo constitucional de João Goulart. Centenas de marinheiros, praças, cabos e sargentos que participavam de associações profissionais e defendiam as Reformas de Base foram presos nas primeiras horas do golpe. A repressão aos democratas e legalistas, da base ao topo da hierarquia, fez dos militares o grupo mais numeroso de cidadãos perseguidos pelos golpistas de 1º de abril.

Levantamento do pesquisador Cláudio Beserra de Vasconcelos, da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj), mostra que entre 1964 e 1970 foram punidos pelo menos 1.487 militares: 53 oficiais-generais, 274 oficiais superiores, 111 oficiais intermediários, 113 oficiais subalternos e 936 sargentos, suboficiais, cabos, marinheiros, soldados e taifeiros. Novo surto de perseguição ocorreria nos anos 1980, no final da ditadura. De acordo com a Comissão Nacional da Verdade, entre 6.500 e 7.500 membros das Forças Armadas e das polícias militares foram perseguidos, presos, torturados ou cassados pela ditadura.

Os números da repressão aos militares desfazem o mito de que as Forças Armadas estavam “unidas e coesas” em torno do golpe de 1964. Na verdade, desde o final da Segunda Guerra, havia uma nítida divisão da oficialidade entre os defensores de um projeto de desenvolvimento nacional e os que apoiavam o alinhamento do país aos interesses econômicos dos Estados Unidos. Essa divisão se expressou na campanha pela criação da Petrobrás, nas acirradas disputas pela direção do Clube Militar e nos golpes e contragolpes que marcaram os governos de Getúlio Vargas, Juscelino Kubitschek e João Goulart.

Os legalistas e democratas, que haviam garantido a posse de JK em 1955 e a de Jango em 1961, foram os derrotados de 1964 e pagaram um alto preço por isso. Entre os cassados e expurgados das primeiras listas estavam o general Ladário Pereira Telles, comandante do 3° Exército; o almirante Pedro Paulo de Araújo Suzano, ex-ministro da Marinha; o contra-almirante Cândido Aragão, comandante do Corpo de Fuzileiros Navais; o brigadeiro Ruy Moreira Lima, herói da FAB; o brigadeiro Francisco Teixeira e os generais Argemiro Assis Brasil e Luís Tavares da Cunha Mello, auxiliares de Jango; o marechal Osvino Ferreira Alves, presidente da Petrobras; e o historiador Nelson Werneck Sodré, general reformado. De 1964 a 1966, foram expurgados 24 dos 91 oficiais-generais das Forças Armadas.

Muitos sargentos, marinheiros e praças punidos em 1964 iriam se integrar a organizações clandestinas no combate à ditadura, especialmente o Movimento Nacionalista Revolucionário (MNR), a Ação Libertadora Nacional (ALN) e a Vanguarda Popular Revolucionária (VPR). Um dos primeiros assassinatos reconhecidamente ocorridos numa prisão da ditadura foi o de um militar, o sargento Manoel Raimundo Soares, do MNR, cujo corpo foi encontrado com as mãos amarradas nas águas do rio Jacuí, em Porto Alegre, em 1966.

Eram também militares dois dos maiores heróis da resistência à ditadura: os capitães Sérgio Ribeiro Miranda de Carvalho, da Aeronáutica, e Carlos Lamarca, do Exército. Em 1968, o capitão Sérgio integrava o grupo de resgate Para-Sar e recusou-se a executar um plano terrorista de seu comandante, o brigadeiro João Paulo Burnier. Dessa forma, evitou a explosão criminosa do gasômetro do Rio, atentado que serviria de pretexto para o assassinato de líderes democratas. O herói foi punido pelo AI-5. Em 1969, o capitão Lamarca desertou do quartel de Quitaúna (SP) para unir-se à VPR e tornou-se um dos guerrilheiros mais procurados do país. Em 1971, isolado, doente e faminto, foi assassinado por agentes da repressão no sertão da Bahia.